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terça-feira, 5 de maio de 2009

Sugestões Maio

Estreia-se uma nova rubrica Senhoras do Metal (SM). Em cada mês vamos apresentar-vos um conjunto de três a cinco projectos musicais, que por uma ou outra razão consideramos imperdíveis.




Comecei a escrever este artigo há bastante tempo. A dificuldade não esteve em encontrar projectos para destacar, esteve sim em decidir quais destacar. À dificuldade não foi com certeza alheio o facto de, nos últimos dois anos, eu ter ouvido mais música do que no resto da minha vida. É um vício apaixonante procurar novos projectos de metal, rock, alternativo, ambience, electrónico, darkwave, enfim, todos os estilos que por uma ou outra razão entrem no âmbito das SM. Na imensidão da oferta são mais as vezes em que descobrimos projectos pouco entusiasmantes, alguns até desinteressantes. Felizmente, tenho tido a sorte de encontrar algumas coisas realmente boas. Outras ainda, incrivelmente fascinantes.



Por entre a miríade de projectos musicais encontramos por vezes projectos de contornos um pouco diferentes do habitual. Ao sair do âmbito das bandas, damos de caras com o universo dos projectos a solo, isto é, projectos nascidos musicalmente, conceptualmente, instrumentalmente das mãos de uma só pessoa. Esses projectos tomam muitas vezes o nome da própria pessoa atrás de toda a sonoridade – é o caso da extravagante Emilie Autumn ou da mais extrema Cadaveria. Quando mergulhamos no mundo dos projectos em nome próprio encontramos por vezes pérolas brilhantes e pouco conhecidas e, ainda menos, reconhecidas. Eu encontrei três dessas pérolas. E até, se me permitem dizer, três dos melhores álbuns que ouvi desde 2007. São três os nomes próprios: Priscilla Hernández, Eilera, Elane. Elas são as vozes e as intérpretes, as compositoras, as instrumentistas e, acima de tudo, o espírito por detrás das brilhantes criações musicais que vos apresento em seguida.




Priscilla Hernández - Ancient Shadows - The Ghost and The Fairy (2006)









“The light, the shade, the fairy, the ghost... A journey full of contrasts through an angelic voice that manages well in genres that goes from new age to celtic pop.”





É com estas palavras que Priscilla Hernández se apresenta ao ouvinte que passa. Como se tudo no seu trabalho fosse assim tão simples…

Priscilla Hernandez é, antes de mais, uma personagem fascinante. Natural das Ilhas Canárias, Priscilla é simultaneamente música, compositora, intérprete e ilustradora de contos de fadas. Artista independente, tem a sua própria editora, YIDNETH. Define a sua música como “ethereal gothic” e há definitivamente muito de gótico e etéreo no que Priscilla cria: etéreo, gótico e de uma beleza assustadora.

Em Maio de 2002, Priscilla Hernández decidiu mostrar a sua primeira música ao mundo. I Steal The Leaves tornou-se um êxito entre os fãs do género ambient, darkwave e new age, mas a música já entrara na vida de Priscilla há muito tempo, tendo começado a escrever e compor ainda na pré-adolescência. Desde muito cedo fascinada por histórias de fadas, fantasia e pelo lado mais negro do folclore, Priscilla criou um imaginário de sonhos único, usando a voz e as melodias como forma de expressão de estados de espírito humanos.

Após algumas demos e colaborações em bandas sonoras e outros projectos, o final do ano 2006 vê nascer o seu álbum de estreia, Ancient Shadows – The Ghost and The Fairy, uma compilação de 19 das suas músicas e dois booklets ilustrados pela própria.

Priscilla trás-nos com este registo o seu mundo imaginário de infância e adolescência, mas não pensemos por isso que falta maturidade a este Ancient Shadows. Priscilla é de uma coerência assustadora, fazendo perpassar por todos os temas um conceito central: o lado mais luminoso dos contos de fadas, contrapondo-se ao seu lado mais escuro e perturbador. Entre fadas e fantasmas, este projecto enreda-nos num jogo de luz e sombra. Há uma tristeza profunda na voz de Priscilla, uma suavidade etérea que no entanto é forte e insistente. Explorando esse estado de estranheza que é estar entre o sonho e o acordar, Ancient Shadows percorre momentos de beleza e doçura, mergulhando suavemente num vazio e numa escuridão que é mais perturbadora do que aquela que nos trazem intencionalmente muitos CDs de metal.

A música de Ancient Shadows baseia-se na voz, sintetizadores e flauta, elementos a cargo da própria Priscilla que trabalha melodias e letras que são simplesmente mais um elemento de fascínio em todo este trabalho. O celta, o ambience, o darkwave, juntam-se harmoniosamente e podemos reconhecer referências diversas ao trabalho de Lorenna Mckennit, Enya ou mesmo de uns Dead Can Dance e Tori Amos. No entanto, o mundo que Priscilla nos trás é tão dela, tão próprio, que todas estas possíveis referências ficam aqui apenas enquanto isso mesmo – referências. Acima de tudo, Priscilla é uma intérprete e uma poetisa. A sua voz não soa como nenhuma outra. As melodias nunca foram ouvidas. O imaginário lírico funciona como um livro entre o autobiográfico e a fantasia, uma janela para alma de Priscilla.

Em 19 temas, o destaque vai para aqueles sobre os quais se torna difícil falar ou exprimir correcta e concretamente o que os torna tão absolutamente especiais. É o que é possível fazer numa review que nada mais é que o parente pobre de um trabalho musical desta qualidade.

Away é uma canção tão profundamente emocional (aliás, como tudo aquilo que Priscilla cria) que se torna difícil escrever sobre ela. Se pensarmos que Priscilla a escreveu quando tinha não mais do que 12 anos, mergulhamos directamente numa complexidade quase inexplicável. Resgatada das memórias da sua infância, Away é uma epifania àquilo que deixamos para trás e a voz de Priscilla é o condutor perfeito que nos leva de volta ao passado.

But if you go é monumental, uma das faixas mais negras do disco, com a voz de Priscilla a descer a tons mais graves, a melodia a conduzir-nos ao interior de nós mesmos, resgatando daí as nossas maiores dores. Esta autópsia aos seus e nossos sentimentos é mestria neste Ancient Shadows.

I steal the leaves evidencia a influência folk e celta, numa faixa cheia de brilho e luz. Priscilla é uma intérprete de excelência e evidencia isso claramente nesta faixa, levando-nos ao seu mundo de fantasia, onde luz e sombras duelam em batalha inglória.

Nothing introduz pela primeira vez uma simples melodia de piano. Ouvir esta Nothing é sentir o mesmo nada e vazio que talvez Priscilla tenha sentido quando a escreveu.

Outros temas são incontornáveis, remetendo mais para esse outro lado de Ancient Shadows, a escuridão e o pesadelo. The Willows Lullaby funciona exactamente como uma canção de embalar perturbadora. A melodia oscila perigosamente entre o sonho e o medo, enredando-nos numa teia confusa de sentimentos… The Call of The Nymph principia com sussurros encantados e perturbadores, uma faixa maravilhosa para a voz de Priscilla que se perde em devaneios sonhadores que nos recordam a fabulosa intérprete dos Dead Can Dance.

Ancient Shadows poderia ser um disco exclusivamente para os fãs do género. Possivelmente é. Mas eu tendo a considerar que quem gosta de música não se importa de viajar por diferentes estilos, não se importa de ser arrebatado um dia por um trabalho ambience e darkwave e noutro por um disco de trash metal, sem perder a sua identidade própria. A música tem a capacidade fascinante de ser uma das poucas artes que pode ser compreendida e amada por toda a gente, mesmo que não haja razões que o justifiquem.

Independentemente dos gostos, mais ou menos ecléticos, permitam que Priscilla vos leve ao seu mundo. Permitam que este Ancient Shadows vos arrebate. Julgo que não se arrependerão.


Tracklist Ancient Shadow – The Ghost and The Fairy:

1) Facing the dream (opening credits)
2) Away
3) Ancient Shadows
4) But if you go
5) I steal the leaves
6) The Call of the Nymph
7) The willow´s lullaby
8) Nothing
9) Haunted
10) Nightmare
11) Fairy tale
12)The realms of twilight
13)The voice of the night
14)Lament
15)Ahora que te has ido
16) The Prince and the fairy
17) I´m right here
18) Sueño muerto
19) Facing the dream (Closing Credits)

- Aqui é possível ler o conceito do álbum e a história por detrás de cada um dos temas.
- O site de Priscilla é muito completo e contém todos os projectos da artista, desde a sua música, às histórias, ilustrações, vídeos ao vivo e videoclips. Vale a pena passar por lá: Site Oficial



Eilera – Fusion (2007)








"Freedom, passion, electricity and Beauty... I owe a lot to Nature for these songs. She was at the heart of a lot of them. Just like this great urge of mine to grab the present moment, put it in my mouth, swallow it and keep it as deep and preciously as I can in me. And it was the alchemy between warmth and cold, extreme emotions, passion, all of those carried by the meeting of Metal music with Celtic folk and electronic/concrete sounds... my very own fusion of all of those..." - Eilera



O projecto Eilera nasceu em 2000 da colaboração entre Eilera e o guitarrista Loïc Tézénas. Após duas demos onde procuraram definir um estilo mais concreto para a sua música, lançam o primeiro álbum, Facettes. Corria o ano de 2003. Eilera assina pela Spinefarm Records e em 2005 lança o primeiro CD com o selo desta editora - Precious Moment, um EP de quatro faixas. Começa aqui uma nova era para esta dupla musical, nascida da personalidade e vontade de Eilera. A explosão dá-se com Fusion, em 2007. Não falo de uma explosão em termos de divulgação a uma grande escala, mas sim de uma explosão musical vibrante e com toques de brilhantismo.


Fusion é, como o nome indica, uma fusão de diferentes estilos, que vão desde o electrónico, ao metal, ao alternativo, ao folk e celta. A primeira vez que ouvi este registo surpreendi-me com algo em que nunca tinha pensado: que o electrónico e o celta são companhia perfeita um para o outro. Essa foi apenas uma das surpresas. O violino é outra das surpresas, um elemento de cor tão forte neste álbum que é absolutamente inolvidável. Inolvidável é também a voz de Eilera que é capaz de ser a melhor voz que já ouvi. Melhor não no sentido de encantadora ou brutal, mas porque é simultaneamente encantadora e brutal, frágil e forte, passando da melodia ao berro, enquanto o diabo esfrega um olho. Há algo de diabólico em Eilera, quanto mais não seja o facto de a sua música ser absolutamente estranha e viciante, capaz de alterar as minhas concepções razoáveis sobre o que é musica, ou pelo menos, como deveria ser. O "dever ser" não tem qualquer importância para Eilera que faz o que bem lhe apetece e diz o que bem lhe apetece, através de um conceito lírico forte e quase chocante.




É impossível referenciar os pontos altos deste álbum, porque todas as músicas são um ponto alto. Há no entanto alguns temas que nos capturam primeiro. Tema de abertura, Non Merci – primeiro contacto com a voz de Eilera, com o violino enlouquecido e com um refrão retumbante e vicioso. Um conceito lírico perturbador. Segue-se In The Present, com uma melodia inesquecível, onde o celta e o electrónico se abraçam numa dança fabulosa. A mensagem transmitida é forte, algo que Eilera parece não conseguir evitar, uma clareza excruciante que lhe parece estar no sangue, tanto como na voz, simultaneamente directa e misteriosa. Healing Process dá preponderância ao metal e ao electrónico. Esta é uma faixa pesada e ainda mais perturbadora. O refrão repete-se até a uma exaustão que nunca sentimos realmente, porque continuamos a cantá-lo muito depois de a música ter terminado. O tema título é o auge da fusão a que Eilera se propôs neste trabalho. A melodia não podia ser mais contagiante ou inebriante. Destaque mais do que merecido para os violinos que atingem aqui o expoente máximo. Addicted é outro tema incontornável. Fusão metal e electrónico mais do que perfeita. Destaque para os ritmos e precursão e para a paixão na voz de Eilera.



Paixão será definitivamente a palavra para definir a sua música. A sua característica dualidade está presente na fenomenal The Angel You Love, The Angel You Hate, o lado inocente e ingénuo, fundindo-se com o mais perturbador e quase maléfico. Este tema é como um sumatório daquilo que Eilera nos trás com Fusion. Os violinos estão lá, as palavras perturbadoras também e a voz ainda mais perturbadora que atinge o seu expoente máximo neste tema, indo de um suave e encantatório até ao auge do desespero.

Um trabalho passional e apaixonante. Imperdível.

A boa notícia é que há já um novo álbum a caminho, como nos conta Eilera no site oficial:
"I went through a lot of things this last year. Good and bad. I
met a lot of people. Good and bad. There has been a lot to stimulate
my imagination. And there has been much to open my eyes on many things
in this world... All in all, it's time for new songs."
- Eilera

Cá o esperamos.

Tracklist de Fusion:
1. Non Merci
2. In The Present
3. Healing Process
4. Fusion
5. Addicted
6. The Angel You Love, The Angel You Hate
7. Keep Our Heaven
8. Back To The Essentials
9. Free Are You
10. September


Site Oficial
Myspace


Elane – The Silver Falls (2008)





A música de Elane parece vir de outra era, parece ser tão antiga como florestas perdidas e mares desconhecidos. A sonoridade caíria como uma luva num filme como as Brumas de Avalon. Na verdade, se Elane tivesse feito a banda sonora desse filme teria, possivelmente, feito dele uma autêntica obra de arte. Na sua música mistura-se suavemente o folk, o celta, o electrónico o darkwave, a world music e o metal, de uma forma tão harmoniosa que é difícil saber onde começa cada uma destas vertentes da música. Elane chega ao ouvinte com diferentes etiquetas coladas por cima da sua sonoridade – a genérica designação de alternativo (que normalmente esclarece muito pouco), a ambígua designação de indie e a bela auto-denominação de "dark fantasy folk". Escolham a que acharem melhor. Por mim, Elane é, indubitavelmente, Elane.

Elane é o nome da banda, o nome da vocalista, o espírito da música. Como a própria explica:


“Who is Elane? Is she a figure that came to you in a dream? An ancient Pagan Goddess? A fairy that you met in a magical circle cast? Or is it "The Very Soul of The Band"?

Maybe everything. And maybe it's the person you become when you start to believe in a strong dream, when you try to reach the "impossible." Of course she also plays a role in all of our songs, although she isn't present on the surface of many lyrics. Maybe you can really call her "the very soul of the band" in regard to our belief that we can make people discover something more and maybe even magical in our music.”
- Joran Elane (em Musical Discoveries http://www.musicaldiscoveries.com/reviews/elane.htm#INTV)

The Silver Falls é a mais recente aposta deste projecto e data de Outubro do ano passado, constituindo o terceiro longa-duração da banda germânica. A história da banda começa a contar-se com o álbum de estreia The Fires Of Glenvore, seguido pelo EP Love Can't Wait, aperitivo para o segundo registo, o brilhante Lore of Nén. Mas Elane nasceu da mente criativa de Joran Elane, principal vocalista (flautas, artwork e videos), que se rodeou dos músicos Skaldir (guitarra, arranjos orquestrais, voz e percursão), Nico (teclados, voz, programming), Katrin (violino, viola, voz), Simon (violino e clarinete) e a convidada soprano Neniel Tindómerel.

A maior pena para mim é a ausência de Neniel neste The Silver Falls. A sua voz fazia um excelente contraste com o timbre grave de Joran. É claro que isto é apenas um pormenor e deriva do meu gosto pessoal. The Silver Falls é um álbum superior ao anterior, em muitos aspectos.

Este registo começa de forma muito suave, com as músicas a soarem a tudo menos a metal e termina em força com o peso a destacar-se nas últimas faixas. Open the Gates abre o registo com uma melodia de violino entrelaçando-se com a guitarra e a voz de Joran, grave e profunda. Elfennacht trás-nos um tom mais folk, com a bateria muito presente e a voz de Joran cantando na sua língua materna (alemão). A melodia do refrão é agradavelmente dançante.


Silverleaf é uma faixa luminosa, com uma melodia delicada e a voz de Joran explorando o seu timbre mais doce. The Land Through Your Eyes é brilhante. A duas vozes este tema conduz-nos por terra desconhecida. Piano, bateria, violinos concorrem para nos oferecer uma paisagem musical variada, mas impressionantemente coerente. A voz de Joran é sonhadora e inebriante num dos refrães mais marcantes do álbum. À imagem e semelhança de Silverleaf, Paperboat & Silverkite é mais delicada, quase frágil. A fragilidade não deixa prever a intensidade retumbante daquela que considero uma das melhores faixas do álbum. Aqui destacam-se claramente os tais elementos mais electrónicos, harmonizando-se de forma quase perfeita com o violino perdido em melodias tipicamente folk. A bateria é também tipicamente folk, por vezes tribal, uma voz masculina pontua de gravidade e emoção e a voz de Joran perde-se em devaneios e murmúrios. A composição lírica é só mais um elemento brilhante deste sonho e o refrão é mais dos pontos altos deste registo.

Segue-se Crimson Lullaby – The Weight of The World, que acentua claramente os elementos electrónicos aos quais se juntam as guitarras acústicas estabelecendo uma paisagem folk. A voz de Joran desce a um tom negro e dramático, enquanto a música se torna cada vez mais delicada, continuando na faixa seguinte, Crimson Lullaby – The Dreamer, com os elementos electrónicos cada vez mais presentes.

Amber Fields é a minha preferida na sua tristeza profunda e luminosa delicadeza. Um piano grave e a voz de Joran fazem magia numa das melhores melodias que tenho ouvido nos últimos tempos. My Promised Land é a faixa mais pesada, com uma entrada em delírios vocais e com as guitarras a traçarem depois o caminho, em malhas sonoras. Enchantment (Dance With a Storm) não soaria deslocada num álbum de Lorenna Mckennit não fosse pela voz de Joran, tão radicalmente diferente de qualquer outra que tenhamos ouvido. Secção rítmica e guitarras oferecem-nos espectáculo neste tema. One Last Time retoma a toada inicial do álbum, encerrando este círculo em forma de viagem sonora.

Um álbum belo, que se distingue da míriade de sons que nos atingem todos os dias, pela história que trás consigo, a suavidade e combinação dos instrumentos e uma voz de contornos únicos.

Deixem-se levar.

Tracklist de The Silver Falls:

1) Open The Gates
2) Elfennacht
3) Silverleaf
4) The Land Through Your Eyes
5) Paperboat & Silverkite
6) The Emerald Princess
7) Crimson Lullaby: The Weight Of The World
8) Crimson Lullaby: The Dreamer
9) Amber Fields
10) My Promised Land
11) Enchantment (Dance With A Storm)
12) One Last Time

Site Oficial

Myspace


Inês Rôlo Martins

domingo, 1 de março de 2009

REVIEW - Silentium - Seducia [2006]


Tracklist:
1. Hangman's Lullaby
2. Serpentized
3. Dead Silent
4. Unbroken
5.Frostnight
6. Children of Chaos
7. Empress of Dark
8. Seducia



Os Silentium ainda são uma banda relativamente desconhecida no universo das bandas com vocalista feminina. No entanto, se actualmente tocam aquilo que se convencionou como gothic metal, no início da sua carreira, a sonoridade deste colectivo finlandês tinha uma toada bem mais doom, com predominância da voz masculina, enquanto a voz feminina ficava relegada para um plano mais secundário.

O grande salto qualitativo deu-se em 2003, com o discreto lançamento de Sufferion - Hamartia of Prudence que, injustamente, passou ao lado de muitos reviewers e apreciadores dos género em causa. Mais do que música bem executada por músicos competentes, Sufferion - Hamartia of Prudence é um trabalho único, meio rock ópera, meio teatro, meio radionovela que, inclusivé, contou com a performance de actores profissionais.

No entanto, foi neste Seducia que o colectivo finlandês – pais que habituou os fãs do rock e do metal a grandes bandas – encontraram o seu estilo próprio. Seducia é também o álbum de estreia de Riina Rinkinen, a actual vocalista dos Silentium, senhora de uma voz grave, sensual e expressiva, algo raro no denominado female fronted metal, que desde a sua génese tem apostado em vozes agudas e límpidas.

Ao lado de Riina, Matti Aikiu cria um contraste vocal mais ou menos bem conseguido. A voz de Matti é peculiar, e situa-se algures entre os grunts e as vocalizações mais agressivas de Marco Hietala (Nightwish), mas sem atingir o patamar de excelência do vocalista/baixista da famosa banda finlandesa.

Apesar do jogo vocal entre voz masculina e feminina, da utilização de um violoncelo e das ambiências melancólicas e, por vezes, obscuras, que embebem a sonoridade, Seducia não é o típico álbum de gothic metal. Sem desbravarem terrenos virgens, os Silentium conseguem imprimir alguma originalidade à sua música, e uma personalidade vincada. Ouvir Seducia é como beber um café negro e amargo, mas com notas aveludadas e repletas de sensualidade. A teatralidade que domina algumas das faixas torna-as perfeitamente aptas para fazerem parte de uma ópera rock, contudo, o colectivo nunca se deixa cair em exageros nem no refrão orelhudo fácil. A maoria dos temas têm uma cadência mid-tempo, com a inclusão de alguns momentos mais rápidos e agressivos.

Nas melancólicas Hangman’s Lullaby, Dead Silent e Frostnight, Riina tem a oportunidade de brilhar como primeira voz, apenas acompanhada por alguns apontamentos vocais de Matti. Estas faixas são dominadas por refrães fortes na voz de Riina, teclados precisos e negros e maravilhosos apontamentos de violoncelo. Embora os instrumentistas não tenham muitas oportunidades de brilhar individualmente, os ouvidos mais atentos poderão escutar alguns riffs interessantes sob a muralha de som. No entanto, o mais importantes nestas faixas é a melodia e as linhas vocais que, embora não soem dissonantes, não são as mais habituais neste género.

O lado mais agressivo dos Silentium está presente em Serpentized, Children of Chaos e Empress of Dark. Serpentized é quase totalmente cantada por Matti, que tem aqui a sua oportunidade de brilhar. Infelizmente, a sua voz não funciona sem o apoio de Rinna e, embora a faixa tenha uma estrutura interessante, acaba por sair prejudicada pela prestação de Matti.

Children of Chaos é um grande malha, a mais original alguma vez criada pelo colectivo. Recheada de notas dissonantes, mudanças abruptas de ritmo, é uma das mais teatrais de Seducia, com Matti e Riina num dueto insidioso e sedutor. A secção rítmica desempenha um papel importante nas mudanças de ritmo, enquanto os restantes elementos se degladiam numa luta pela supremacia. Desta vez, o desafio dos ouvidos atentos é encontrar harmonia na dissonância.

Empress of Dark é uma das mais rápidas e agressivas, com excelentes vocalizações de Matti, que contrastam com o tom malicioso de Riina. O destaque vai para o violoncelo que, em certos momentos, se sobrepõe a todos os outros instrumentos, e noutros se entrelaça com a voz da vocalista.

Unbroken poderia ser a típica balada, estrategicamente colocada a meio da tracklist. No entanto, a interpretação de Riina torna esta uma das mais poderosas faixas do álbum. E se existiam dúvidas de que Riina é uma das melhores intérpretes do género, parece que esta prestação é a prova de que a vocalista desta banda ainda obscura deveria ocupar o seu merecido lugar no ranking das melhores vocalistas femininas. Sem grandes exercícios vocais, sem “lamechices” desnecessárias – e talvez por isso mesmo – Riina consegue partir o coração do metaleiro mais empedernido. Se não acreditam em mim, desafio-vos a experimentar.

E, finalmente, o tema título, Seducia, que também poderia ser a típica faixa longa que fecha o álbum, algo que se tornou já um cliché de muitas bandas de gothic metal e metal sinfónico. No entanto, e tal como Unbroken, a interpretação fabulosa dos vocalistas, que encetam um diálogo quase perverso na sua crueldade, a presença insidiosa do violoncelo, a secção rítmica poderosa, a diversidade de momentos, desde rápidos a agressivos, a lentos e sensuais – de notar que tudo isto é feio sem a presença de uma grande orquestra – elevam este tema acima de muitas outras experiências do mesmo género, algumas até de bandas mais aplaudidas.

Seducia é um álbum musicalmente coeso, negro, que pode realmente apanhar-nos se for escutado com atenção e no momento certo. Com este trabalho, os Silentium insinuam-se já como uma das melhores e mais originais propostas num género que, muitos, afirmam estar já gasto e exaurido. Seducia é esse café forte, cujas tonalidades devem ser descobertas lentamente, mas que contém a promessa de um efeito duradouro.


Destaques: Hangman’s Lullaby, Unbroken, Children of Chaos, Empress of Dark, Seducia



18 valores em 20



Cláudia Rocha (Lua Crescente)


Line-up: Riina Rinkinen (voz), Matti Aikio (baixo e voz), Jari Ojala (bateria), Juha Lehtioksa (guitarra), Sami Boman (teclados), Toni Lahtinen (guitarra)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

REVIEW - Within Temptation - The Heart of Everything [2007]

Tracklist:
1. The Howling
2. What Have You Done feat. Keith Caputo
3. Frozen
4. Our Solemn Hour
5. The Heart Of Everything
6. Hand Of Sorrow
7. The Cross
8. Final Destination
9. All I Need
10. The Truth Beneath The Rose
11. Forgiven
12. What Have You Done (Rock Mix)


A saída do single What Have You Done causou, em 2007, o pânico entre ouvintes de metal puristas e não puristas, e entre os fãs do colectivo holandês. Longe, muito longe, do que foi Mother Earth, e ainda um pouco longe de um The Silent Force, o single escolhido - um hit rock cantado por Sharon den Adel e Keith Caputo dos Life of Agony - apresentava a banda com uma nova sonoridade, e isto não seria necessariamente bom. Felizmente que este excelente tema rock radio-friendly (que teve o mérito de levar os Within Temptation aos EUA) não tinha quase nada a ver com o resto do álbum, falhando em representá-lo como primeiro single. O quarto álbum de estúdio do colectivo holandês não se limita a ser mais um capítulo de uma já considerável carreira, mas um passo em frente ou, se quiserem, um capítulo de destaque com alguns toques de brilhantismo.

The Heart of Everything (THOE) é o álbum em que as guitarras ganham mais destaque, estando ainda longe da notoriedade que, na minha opinião, mereciam. Guitarras eléctricas e acústicas, explorando malhas rock e metal, tornam-se neste álbum mais presentes do que em qualquer outro da carreira da banda. O que continua a estar majestosamente omnipresente é a melodia excepcional dos teclados a cargo da mente e mãos criativas de Martjin Spierenburg, autor, em conjunto com Robert Westerholt e Sharon den Adel, da maioria dos temas. Produzido por Daniel Gibson, THOE traz-nos um conjunto de excelentes melodias nas quais os teclados brilham e as guitarras se impõem um pouco mais, contribuindo para tornar este um dos registos mais obscuros da carreira dos WT. Acompanhando a tendência dos últimos tempos (ou, quem sabe, liderando-a), Sharon den Adel entrega-se a vocalizações rock, as mais graves de toda a sua carreira, levando a sua voz por caminhos nunca antes explorando, utilizando com mestria ambas as tonalidades, rock e lírica, do seu timbre e fazendo uso de técnicas vocais distintas de registos anteriores. THOE é, sem qualquer dúvida, o registo da excelência da técnica vocal de Sharon den Adel.

O álbum abre com a bombástica The Howling, que começa suave para se tornar numa malha de velocidade e peso. Orquestrações e guitarras unem-se para nos dar espectáculo e a eles junta-se uma Sharon que canta em tom praticamente irreconhecível. Por entre sussurros, a sua voz surge grave e rouca, arranhando tons obscuros, nunca antes utilizados na sonoridade da banda. Refrão absolutamente viciante e vicioso, com as guitarras sempre omnipresentes, oferecendo-nos paisagens sonoras gratificantes.

What Have You Done é o tema controverso do álbum, precisamente por apelar a um lado mais comercial. A escolha para single era inevitável e falhou (como na grande maioria dos singles escolhidos pelas editoras) em representar a sonoridade deste registo. Alguns fãs mais puristas podem até considerar que, com esta faixa, os WT traem a sua própria sonoridade, mas eu tenho pouco de purista. Trata-se de um dueto muito bem conseguido entre Sharon e Keith Caputo e que não deixa em nenhum ponto de evidenciar as marcas da sonoridade dos WT. Tema orientado pelas guitarras, com um refrão claramente orelhudo e que resulta da bonita combinação entre ambas as vozes, que se harmonizam num diálogo de contrastes. E apesar de todos os comercialismos que esses fãs puristas aqui encontram (e que estão lá), também estão presentes todas as características que fazem deste tema um tema WT – melodias em profusão, sintetizadores, vocalizações fortes e guitarras adicionando peso.

Frozen tem tudo para ser uma balada rock. Desde a sua entrada discreta e depois imponente, passando pelas vocalizações dramáticas e emocionais de Sharon den Adel, que se exprime sobre uma guitarra acústica ainda mais dramática, até ao refrão cantado como um grito de desespero numa melodia inevitavelmente catchy, tudo concorre para um excelente tema de gothic rock/metal. O ouvido mais experimentado em múltiplas audições pode surpreender-se ao descobrir a voz do guitarrista Ruud Jolie em backing vocals.

Our Solemn Hour é só um dos melhores temas de sempre da banda. Não é fácil decidir por onde começar numa faixa que tem tudo do bom e do melhor – desde refrão orelhudo, a coros gregorianos, passando por guitarras e melodias viciantes. Esta faixa é um somatório de tudo o que de melhor os WT sabem fazer. Inicialmente, a voz de Sharon canta quase num sussurro – "Sanctus Espiritus" – e ouvimos o discurso de Winston Churchill, transportando-nos para o cenário da Segunda Guerra Mundial. Um coro de vozes explode e com ele a música. A voz de Sharon desce ao mais profundo desespero, os sintetizadores servindo-lhe de tapete até as guitarras nos atingirem como se nos encontrássemos no meio do campo de batalha. O refrão é das coisas mais catchy alguma vez compostas por uma banda de metal sinfónico. Fugir-lhe é impossível. Lá mais para frente temos direito a solo de guitarra [e que solo!], cortesia de Ruud Jolie.

The Heart of Everything é o tema título deste álbum e possivelmente uma das músicas mais negras da discografia dos WT. Introdução épica e dramática com a voz de Sharon a erguer-se numa melodia e depois guitarras ao poder e estamos perante a composição onde elas têm um destaque fundamental. A voz de Sharon percorre novos trilhos, mais grave do que nunca, rodeada pelas malhas sucessivas das guitarras, concorrendo para a criação de uma atmosfera obscura. O melhor desta música não é, infelizmente, o refrão – passa-se bem por ele quase sem o notar. O que esta música tem de melhor é mesmo todas as restantes partes, a forma como a voz de Sharon se encaixa com habilidade nas malhas tecidas pelas guitarras, destilando uma letra acusatória, a lembrar um purgatório de destino para a alma humana. A finalizar, Sharon rende-se finalmente a uma interpretação mais lírica, erguendo-se etérea e angélica com as imparáveis guitarras por baixo. Uma das melhores prestações vocais de sempre.

Hand of Sorrow é mais um incrível tema épico com selo WT. Tem tudo aquilo em que este colectivo se especializou ao longo destes anos – melodia encantatória de piano na abertura, bateria e guitarras a explodirem em seguida, e os teclados de Martjin Spirenburg a levarem-nos numa dança até Sharon começar a cantar/contar mais uma história. A música é, sem dúvida mais alegre, do que a história que é contada: uma história de lutas e perdas inspirada na figura de William Wallace. Mas os WT são únicos na sua forma de contar histórias e nestes quase 6 minutos oferecem-nos um dos melhores refrães da sua carreira. De destacar o momento mágico recorrente em que a música serena e Sharon é deixada quase sozinha para uma interpretação vocal carregada de emoção.

The Cross é uma preferência pessoal e, para mim uma, das interpretações emocionais – vocais e instrumentais – mais belas por parte dos WT. Sharon den Adel garante ter demorado um ano para a compor música e letra, mas valeu a pena o tempo demorado. A voz de Sharon carrega, como sempre, toda a emoção consigo, que também não falta às guitarras incrivelmente dramáticas, que convergem num refrão absolutamente inesquecível. Aliás, para mim, as guitarras são mesmo o que este tema tem de melhor: insidiosas e penetrantes. Por mais vezes que ouça esta The Cross nunca deixo de descobrir nela elementos novos – ou é o piano num momento inesperado, ou os violinos em lamentos emotivos e sempre aquela voz, negra e profunda, angélica e desesperada. Sem dúvida uma das melhores intérpretes de metal da actualidade.

Final Destination, inspirada no filme com o mesmo nome, é uma faixa musicalmente inferior às restantes. Não quero com isto dizer que é uma faixa má, mas simplesmente que não é tão boa, nem tão emocionalmente verdadeira como as outras. Na verdade, talvez a sua localização no álbum também não seja a melhor, uma vez que quase desaparece entre a majestosa The Cross e a balada dramática All I Need. Ainda assim, somos brindados por uma excelente combinação entre as melodias dos sintetizadores e as guitarras.

All I Need poderia ser a música mais cliché de sempre a ter o selo WT, ou não estivesse tão bem feita. A qualidade desta típica balada é reforçada pelo facto de os WT terem sido sempre tão pouco ortodoxos na composição das suas baladas, quase todas elas atípicas e fugindo a estruturas ditas comuns. All I Need não foge a nenhum lugar-comum – desde a estrutura à letra – e, ainda assim, soa incrivelmente bem. Trata-se de uma composição em que a guitarra acústica tem destaque, seguida de uma bateria apropriadamente lenta, sobre a qual a voz de Sharon soa melancólica e frágil. Numa balada com tudo para ser cliché, os WT demonstram que dominam como ninguém os segredos da melodia, introduzindo no momento certo a guitarra eléctrica, conduzindo a música a um clímax apropriado e deixando depois a voz de Sharon dar o seu espectáculo.

The Truth Beneath The Rose é um colosso épico, a lembrar uma The Promise (Mother Earth). Composição épica, melodia negra e opressiva, letra de contornos obscuros e inspiração num livro de autoria de Dan Brown bem conhecido do mundo ocidental. Tudo o que esperamos de uma faixa épica está presente – entrada majestosa, coros gregorianos em profusão e cantando em latim, guitarras adicionando peso e uma das melhores interpretações líricas por parte de Sharon. Este tema leva-nos, em certos pontos, de volta às origens da banda, com a bateria a soar agradavelmente semelhante aos seus primórdios sonoros.

Forgiven é mais uma das baladas atípicas que esta banda tão bem sabe criar. Martjin Spierenburg ao piano e Sharon na voz, pouco mais é necessário para criar um dos melhores temas da discografia da banda. Basta a belíssima composição da melodia para piano e uma interpretação doce e emocional.

Sem erguerem muito a fasquia, os WT foram um pouco mais longe com este álbum. O apurado sentido melódico que sempre possuíram é levado ao extremo neste registo que nos oferece um conjunto impressionante de refrães marcantes, letras extremamente bem construídas e melodias fortes. O destaque dado às guitarras torna este um disco com um sentimento mais obscuro, ao mesmo tempo que Sharon atinge o apogeu da sua interpretação vocal. É caso para perguntar não What Have You Done? Mas sim What Will They Do Next? Esperemos para ouvir.

18.5 valores em 20

Inês Rôlo Martins (Lua Minguante)

Line-up: Sharon den Adel (voz), Jeroen van Veen (baixo), Martijn Spierenburg (teclado), Robert Westerholt (guitarra), Ruud Jolie (guitarra), Stephen van Haestregt (bateria)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

REVIEW - Within Temptation - The Silent Force [2004]

Tracklist
1. Intro
2. See who I am
3. Jilian (I'd give my heart)
4. Stand my ground
5. Pale
6. Forsaken
7. Angels
8. Memories
9. Aquarius
10. It's the fear
11. Somewhere
12. A dangerous mind
13. The Swan Song



Ao lançamento do brilhante Mother Earth (ME), em 2001, seguiu-se um intenso período de tour, no qual os Within Temptation actuaram nos principais festivais europeus. Dessa longa sucessão de concertos resultou um DVD ao vivo – Mother Earth Tour – e o início da ascensão da banda holandesa. Entre 2001 e 2004 deu-se um interregno no que diz respeito a trabalhos de estúdio, quebrado apenas pelo o EP Running up that hill, uma cover de Kate Bush. No entanto, este pequeno aperitivo não diminuiu a sede dos fãs por um novo álbum de longa duração. Após o sucesso de ME, tanto junto da crítica como dos fãs, as expectativas eram altas.

The Silent Force (TSF) foi lançado no final de 2004 e, embora tenha sido o álbum que catapultou os WT para uma espécie de estrelato raramente atingido por bandas de metal, graças ao qual atingiram novos públicos, muitos fãs ficaram desiludidos e alguma crítica especializada foi implacável.

A verdade é que se deu uma viragem no som que os fãs mais antigos consideravam marcadamente WT. TSF não tem os traços doom de Enter e The Dance, e afastou-se um pouco do gothic/symphonic metal com influências new wave de ME. Tenho algumas dúvidas se sequer podemos considerar TSF um álbum de Metal e, ainda que o queiramos fazer cair nessa categoria, percebemos à primeira audição que se trata de um híbrido com influências rock, metal e muito pop.

As questões impõem-se: os WT venderam-se, aproveitando a onda de sucesso de bandas rock com vocalista feminina iniciada pelos Evanescence? É TSF um álbum radio friendly que atrairá públicos que, por norma, não ouvem metal? A resposta é um quase indubitável "sim". No entanto, outra questão se levanta: é TSF um mau álbum? E aí minha resposta é um rotundo "não".

Apesar das mudanças significativas no som, das quais falarei mais à frente, este é um álbum facilmente identificável como sendo WT. Estes holandeses têm uma capacidade rara de criar álbuns completamente diferentes uns dos outros e, ainda assim, manterem o seu estilo muito próprio. Um dos motivos é Sharon den Adel, que é inconfundível apesar explorar novas formas de interpretar, surpreendendo-nos com versatilidade da sua voz.
Em TSF, Sharon abandonou as notas mais agudas (embora se tenha mantido o registo agudo) e os seus tons mais malevolentes, que foram tão marcantes em ME. Desta vez, optou por um estilo mais suave e angelical, e também mais acessível, mas que vai totalmente ao encontro do espírito de TSF.

As mudanças mais radicais sentidas pelos fãs, e sobretudo pelos admiradores de ME, ocorreram principalmente na estrutura dos temas. Ao invés das estruturas relativamente complexas a que os WT nos haviam habituado, optaram por fórmulas mais simples e mais pop. A inclusão de uma orquestra e de um coro também não pode deixar de ser notada, sobretudo tendo em conta que as guitarras foram quase totalmente obliteradas pela explosão orquestral. Finalmente, a aposta em temas radio friendly, como é o caso de Stand my ground, Angels ou Memories.

Este foi o primeiro álbum que os WT abriram com uma intro, que é tão épica como seria de esperar, com especial ênfase no coro que contrasta com a suavidade da voz de Sharon, que utiliza o seu tom mais operático. Da Intro passamos rapidamente para See who I am, uma das mais bombásticas do álbum, em que o coro e a orquestra são utilizados em full power. O refrão é catchy e épico, característica comum de uma boa parte das faixas de TSF. Outra característica presente neste álbum, e na grande maioria dos temas escritos pelos WT é a força das letras, profundas e emocionais, e que nesta See Who I Am são vibrantes e desafiadoras.

Mas a grande pérola de TSF e, na nossa opinião, uma das melhores composições da sua carreira, é Jillian (I'd give my heart). Este é um tema que desafia qualquer classificação, que fica perfeitamente alinhado num álbum de metal, mas também não cairia nada mal num musical. A voz de Sharon soa mais angélica do que nunca, alcançando notas puras e cristalinas; o trabalho orquestral é soberbo e o coro causa arrepios, num refrão repleto de beleza e força. São os WT no seu melhor.

Stand My Ground
foi o primeiro single, e o cerne da polémica aquando do lançamento de TSF. É de facto uma faixa especificamente pensada para ser tocado nas rádios, com fortes influências rock e um refrão extremamente catchy. Ainda assim, trata-se de um tema típico da sonoridade do colectivo holandês e pouco ou nada tem a ver com a referida banda (ou devo dizer, artista a solo?) americana. À melodia não falta intensidade, as guitarras e o imaginário tipicamente WT.

Pale
vai beber da fonte ME, com reminiscências celtas na melodia. Um tema entre o luminoso e o obscuro, com a voz de Sharon suave sobre um piano delicado e uma secção rítmica a impor uma cadência dolente e arrastada.

Forsaken
é outra das brilhantes composições da carreira dos WT. A voz de Sharon faz-se anunciar angélica e os coros explodem em seguida, com guitarras lançando-se depois. A história que Forsaken nos traz não poderia ser mais apropriada à história da humanidade e ao momento histórico de crise e convulsões que estamos a viver. O refrão é de um grande brilhantismo melódico, enquanto os coros e a letra que se recusam a sair da cabeça do ouvinte.

Seguem-se Angels e Memories, dois temas com nada em comum a não ser o facto de terem passado um sem número de vezes nas rádios um pouco por todo o mundo. Ambos sofrem desse mesmo mal, no sentido em que, depois de tanto os ouvirmos, o inevitável tédio invade-nos. Angels, com a sua toada mais rock, torna-se um pouco menos saturante. Já Memories é uma excelente balada, como já é tradição desta banda. Os WT brindam-nos com o som de violinos, a melodia de piano é encantadora, a voz de Sharon bela como sempre. O lado mais suave e romântico dos WT evidencia-se grandemente neste tema, que foi praticamente assassinado pela fúria das rádios.

Aquarius
está ao nível de uma Forsaken. Trata-se de um dos temas mais obscuros do álbum, com a voz de Sharon a aflorar um tom mais negro e perigoso. Uma grande interpretação vocal para uma das faixas mais metal deste álbum. Camadas de sintetizadores, bateria presente, guitarras pesadas.

It’s the Fear
entra com um piano saltitante e é um dos temas mais divertidos do álbum, apesar da letra sombria. Uma malha nitidamente rock, com coros lançando mais um refrão pegajoso.

Somewhere
é uma das melhores baladas de sempre da carreira dos WT. A música é uma pérola de inspiração, com uma letra arrebatadora. A voz de Sharon cria um tapete musical sobre o som do piano e da bateria.

A edição especial de TSF oferecia ainda duas faixas bónus: A dangerous mind e The swan song. A primeira não nos trás realmente nada de novo. Trata-se de um tema rock, que se encaixa perfeitamente na ambiência de TSF. Por seu lado, The swan song é mais uma balada WT, que nos oferece uma melodia bela e poderosa e uma composição lírica de carácter poético, com o piano e os violinos a darem-nos um belíssimo espectáculo.

Com TSF os WT deram um salto quantitativo – fazendo chegar a sua música a públicos mais diversificados e abrangentes. Independentemente das contrapartidas que possa ter, TSF é um bom álbum, um álbum com selo WT, que nos traz toda a beleza do sinfónico e do orquestral, sem esquecer algum peso e apresentando mais um conjunto de melodias inesquecíveis. Pode ser chocante para os metaleiros mais empedernidos – aqueles que apreciaram os lançamentos mais antigos do colectivo – verem as suas irmãs mais novas, vestidas com roupas coloridas, a escutarem uma banda que, até há bem pouco tempo, se encontrava no underground. No entanto, os WT têm o mérito de terem criado um álbum acessível sem sacrificarem a qualidade e a honestidade daquilo que fazem. Se mantiverem a mente aberta, poderão apreciar a beleza deste TSF.

Destaques:
See Who I Am, Jillian, Forsaken, Aquarius, Somewhere, The Swan Song



17 valores em 20


Cláudia Silva, Lua Crescente
Inês Rôlo Martins, Lua Minguante

Site oficial
Myspace

Line-up: Sharon den Adel (voz), Jeroen van Veen (baixo), Martijn Spierenburg (teclado), Robert Westerholt (guitarra), Ruud Jolie (guitarra), Stephen van Haestregt (bateria)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

REVIEW - Within Temptation - Mother Earth [2001]

Tracklist

1. Mother Earth
2. Ice Queen
3. Our Farewell
4. Caged"
5. The Promise
6. Never-Ending Story
7. Deceiver of Fools
8. Intro
9. Dark Wings
10. In Perfect Harmony

Bonustracks
11. Restless
12. Bittersweet
13. Enter (live at Utrecht 1998)
14. The Dance (live at Utrecht 1998)



Se disser que sempre desejei fazer uma review deste álbum, talvez seja difícil de acreditar que foi a review que tive mais dificuldade em escrever. Conheço este Mother Earth (ME) melhor do que a palma da minha mão. Conheço cada nota, cada palavra cantada. Para escrever sobre ele vejo-me obrigada a ultrapassar esses valores emocionais e prender-me aos estritamente musicais. A isto vem juntar-se a premissa que vai justificar tudo o que vou escrever em seguida: este é o álbum da minha vida. Marcou uma viragem para mim em termos musicais e pessoais e tem, por isso, um lugar de destaque entre as minhas preferências. Portanto, esta review será total e completamente parcial. Considero que os Within Temptation (WT) cresceram e se tornaram excelentes no que fazem, mas ME é, e será sempre, um clássico do metal sinfónico e o diamante em bruto da uma carreira fulgurante.

Primeiro, os inevitáveis dados informativos. ME é o segundo longa-duração de estúdio dos WT e a sua afirmação dentro daquilo que melhor se fazia no plano do metal sinfónico. No que respeita às letras, estas reflectem um imaginário fantástico, entre temas de conotação amorosa, mas também com um pendor claramente crítico de reflexão sobre a actualidade. Os WT compõem melodias brilhantes de piano e teclados, algo evidente neste álbum que é no fundo a harmonização quase perfeita entre peso e melodia.

O tema título é a obra-prima por excelência dos WT. Esta faixa tem um significado muito especial para mim e a tentativa de fazer uma descrição dela é um trabalho deveras inglório. Quem nos lê, conhece com certeza Mother Earth e tem as suas próprias sensações e emoções ao ouvi-la. Em termos estritamente musicais, estamos perante uma composição muito bem construída, que começa com o som dos teclados dançantes, aos quais se juntam as guitarras e secção rítmica. Esta é capaz de ser a introdução mais avassaladora que já ouvi num tema de metal sinfónico. As influências celtas harmonizam-se de forma plena com o peso do metal. A bateria constrói um ritmo coeso e tribal que guia a composição, marcando o momento mais lento entregue aos coros gregorianos. O que dizer da voz de Sharon den Adel? Bom, só ela é capaz de alcançar tais notas desta forma, ponto final.

Segue-se o hino da banda, o single que a catapultou para uma fama que ate aí desconheciam. Ice Queen foi o tema que me deu a conhecer os WT. A minha primeira reacção foi pensar que nunca tinha ouvido nada assim. E não há dúvida de que não soa a nada do que se fazia na época: era forte e catchy, absolutamente novo e fresco. Desnecessário será referir os conhecidíssimos “oohooh”, aquele súbito silêncio antes de a música explodir com um riff de guitarra que se recusa a sair da nossa cabeça por muito tempo. Mas realmente impressionante é a voz que ouvimos sair das colunas e que me deixou boquiaberta nessa primeira audição. Também nunca tinha ouvido uma voz assim, vibrante e aguda, atingindo notas quase impossíveis. Absolutamente viciante – ou não fosse este o tema que fecha com chave de ouro todos os concertos da banda.

Our Farewell é a balada da carreira dos WT. Com uma melodia de piano bela e complexa, esta faixa é de uma sinceridade e emoção palpáveis. Começa de forma delicada e suave, com a voz de Sharon quente e profunda sobre o piano. Um arrepio percorre o ouvinte quando a bateria e as guitarras se lhes juntam. A música cresce grandiosamente, mergulhando num solo de guitarra e atingindo um pico final, com a voz de Sharon a elevar-se até ao clímax final.

Caged é o tema irmão de Mother Earth, tendo uma estrutura semelhante e um dos meus favoritos. A entrada das guitarras arrepia e a voz desce aos confins da terra e sobe ao céu para nos dar uma das suas melhores prestações neste álbum. Sharon adopta aqui o tom que mais gosto: melífluo e teatral, entrelaçand0-se nos coros dramáticos. As guitarras marcam presença, criando ritmo e adicionando peso.

The Promise é um tema monumental, na verdadeira acepção da palavra. A introdução suave e simultaneamente densa, com o órgão a transportar-nos directamente para tempos antigos, é inesquecível. O som cresce e explode, guitarras e órgão lançam-se numa dança desenfreada, dando lugar à voz de Sharon, que faz uma aparição gloriosa e dramática, que nos introduz nesta história de perda e vingança. Mais uma prestação vocal de excelência, mais um momento musical brilhante.

Neverending Story remete para as influências celtas que se evidenciavam nos WT desta época. Como o nome sugere, trata-se de uma canção-conto, uma estória simples mas produnda, cantada por sobre a melodia de piano e apontamentos de bateria.

Segue-se Deceiver of Fools, uma autêntica epopeia musical e mais um dos grandes temas deste ME. A introdução é magistral contando com a presença de um coro ao qual se junta a voz de Sharon. Uma suavidade perturbadora que cedo dá lugar a momentos verdadeiramente épicos. A bateria faz-se anunciar, seguido dos teclados que tocam uma melodia que mais parece um chamamento para a batalha. A voz de Sharon enceta uma narração cantada que culmina com um dos refrães mais vibrantes da carreira da banda. Como na grande maioria dos temas, a composição lírica de Deceiver of Fools transporta-nos para uma história que carrega consigo uma crítica acutilante ao mundo actual, naquela que é uma das melhores letras que já compuseram. No característico momento mais calmo da música, o piano saltitante tece a melodia complementada pelo tom mais doce de Sharon que se ergue num aviso perturbador, realçado pela música que acelera novamente. Composição finalmente entregue às melodias de teclados e guitarras, até o refrão a dominar novamente e deixar no ar uma questão: “Deceiver of Fools, shall he rule again?

Segue-se um curto interlúdio musical, que concorre para a explosão musical que é Dark Wings, uma das melhores malhas do álbum. Os ritmos sincopados atacam-nos logo ao início e a voz ameaçadora de Sharon canta quase num grito, intercalando-se com um coro de vozes femininas. Nesta composição temos a oportunidade de escutar um excelente momento instrumental com a voz de Sharon a aflorar em devaneios orientais, e os teclados a multiplicarem melodias a grande velocidade. A música serena apenas para acelerar novamente com a entrada dos coros e um formidável solo de guitarra, cortesia do quase lendário Arjen Lucassen (Ayreon).

Perfect Harmony apresenta reminiscências de uma Pearls of Light do álbum Enter, transportando-nos para uma floresta misteriosa e uma estória de encantar. Destaque para as melodias suaves e saltitantes e para a interpretação doce de Sharon.

A reedição de 2003 de ME, inclui ainda 4 faixas bónus: Restless (classical remix), Enter e The Dance (performance ao vivo em Utrecht, 1998) e a faixa inédita Bittersweet, na qual se destaca o som das flautas e piano, naquela que é uma das interpretações mais belas de Sharon.

ME é, para mim, o álbum da carreira dos WT, revelando o seu talento na combinação de atmosferas e peso e na composição de melodias. Aquilo que ainda hoje torna a sonoridade desta banda única é esse conhecimento intuitivo da melodia e a maneira como esta chega até nós, apoiada numa voz única. Toda a técnica musical presente neste álbum baseia-se naquilo que é a chave do que esta banda faz - a emoção. A força emocional de ME é, no fundo, aquilo que lhe dá sentido, aquilo que une todos os elementos que o compõem numa só obra-prima.

Por todas estas razões e mais algumas que deixo à vossa discrição, atribuo a este álbum um valor muito próximo da pontuação máxima: 19.5 e não 20 porque deixo à banda a possibilidade de exceder o seu próprio brilhantismo.

19.5 valores em 20

Inês Rôlo Martins, Lua Minguante

Line-up: Sharon den Adel (voz), Jeroen van Veen (baixo), Martijn Spierenburg (teclado), Robert Westerholt (guitarra), Ruud Jolie (guitarra), Stephen van Haestregt (bateria)

sábado, 13 de dezembro de 2008

REVIEW - Within Temptation - Enter [1997] e The Dance EP [1998]

Tracklist:

1. Restless
2. Enter
3. Pearls of Light
4. Deep Within
5. Gatekeeper
6. Grace
7. Blooded
8. Candles





O acto de me sentar em frente ao ecrã do portátil a ouvir Enter dos Within Temptation (WT) tem, para mim, tudo de familiar e, simultaneamente, de estranho. As músicas são-me tudo menos desconhecidas, mas pensar e escrever objectivamente sobre elas já é uma coisa diferente. Nas milhares de vezes que ouvi este CD, muitos foram os motivos por detrás do acto de carregar no play e escolher uma ou outra faixa. Na base, o sentimento geral: os WT são, desde 2003, a minha banda de eleição. Esse foi, para mim, o ano de viragem em termos musicais. Ouvi pela primeira vez Ice Queen e fui esmagada pela obra-prima que é o álbum Mother Earth. Ainda antes do lançamento de The Silent Force, já tinha ido em busca das chamadas "raridades", entre as quais, este Enter e o EP The Dance. E o deslumbramento continuava – estas eram as músicas mais pesadas que já ouvira na minha vida.

Hoje, seis anos depois, esta afirmação está longe de ser verdadeira, mas o deslumbramento, esse jamais desapareceu ou diminuiu, ou não fossem estes Enter e The Dance dois registos admiráveis. As razões para ouvir a música dos WT passaram a ser diversas e a consciência do acto de carregar no play tornou-se cada vez mais inconsciente. Se queria peso e escuridão, Enter ou The Dance davam-me isso mesmo; ou porque não Gatekeeper, Another Day ou Grace. Se queria suavidade e beleza, a lembrar tempos celtas, tinha a sempre bela Pearls of Light. Ou a fenomenal Candles. Se queria a pureza de uma balada, tinha Restless. Se desejasse velocidade e peso, lá estava The Other Half (of Me). E se qualquer uma destas razões não servisse, havia sempre a saudade do som dos WT nos seus primórdios. Quem os acompanha desde esta altura, ou mesmo antes, sabe do que estou a falar. A produção não é de excelência, os grunts de Robert Westerholt não são os melhores que já ouvimos, a voz de Sharon den Adel não apresenta a qualidade cuidada de hoje. Mas tudo isto não poderia soar melhor aos meus ouvidos.

Enter é o álbum de estreia dos holandeses WT e data dos finais dos anos 90, mais precisamente de 1997. Por esta altura, Robert Westerholt abandonava o seu anterior projecto, os Voyage, e encontrava nos WT a possibilidade de criar a música que sempre tinha desejado ouvir – o peso do metal aliado à melodia da música clássica. E encontrava também, na companheira Sharon den Adel, a voz perfeita para a sua música. À fundação de base juntaram-se Jeroen van Veen (no baixo), Martijn Westerholt nos teclados, o segundo guitarrista Michiel Papenhoeve e Ivar de Graaf na bateria. Estes últimos três abandonaram a formação e foram substituídos, em 2001, pelos músicos actuais. Até aqui nada de novo - uma pesquisa no Google esclarece o ouvinte mais interessado. Se esse ouvinte for à procura do álbum de estreia, motivado pelo último registo do colectivo, provavelmente pensará que está perante uma outra banda. Os WT de 1997 tinham pouco a ver com os WT de hoje, e isto não é uma afirmação de saudosismo dos tempos passados. Não. É uma constatação. Também não quero dizer que perderam qualidade, que “os velhos tempos é que eram”. Não. Os WT actuais estão no topo da sua carreira e, por sinal, de muito boa saúde. E recomendam-se.

Enter é diferente do que fazem hoje em muitos aspectos menos num – é um registo de metal sinfónico/melódico. E digo metal, mesmo, sem ambiguidades, sem qualquer pontada do seu rock actual. Estou a falar de metal lento, pesado e repleto de melodia. Metal gótico, doom, com apontamentos de black metal. Em Enter, a grande maioria dos temas são mais longos do que aquilo a que os WT nos têm vindo a habituar recentemente, o que revela a toada doom bem acentuada deste registo. Mas em 1997, a sonoridade dos WT tinha já aquilo que ainda hoje fascina e é praticamente inigualável – melodias de piano majestosas e envolventes, guitarras harmoniosas e com o peso necessário, uma bateria presente nos momentos certos e um sentido apurado daquilo que procuram musicalmente.

Logo no seu álbum de estreia encontramos alguns dos melhores temas do colectivo holandês. A fórmula musical de Enter - a dualidade Beauty and the Beast - parece gasta nos dias que correm, mas na época era do mais fresco que havia e os WT eram [e ainda são] muito bons no que faziam, sabendo marcar a diferença e começando, já nesta altura, a construir uma sonoridade coesa e inconfundível.

A faixa de abertura do álbum, Restless, é uma das baladas mais marcantes da carreira dos WT. A melodia do piano já se tornou uma preciosidade para os fãs da banda, assim como o ritmo lento e cadenciado. A voz soprano de Sharon den Adel demonstra toda a sua juventude e força – uma voz bela e quente, capaz de atingir oitavas de respeito. Guitarras lentas e dramáticas juntam-se à melodia do piano e a voz de Sharon eleva-se acima desta paisagem de pura beleza. Estavam lançadas as bases para uma sonoridade teatral, no bom sentido do termo. Mas Restless era apenas uma amostra de todo o potencial da banda.

A faixa-título, essa, é mesmo de arrepiar. Não será preciso descrever o som do portão que se abre, a voz masculina que diz: “Welcome to my home” e uma súbita bateria que faz a primeira das suas aparições de imponência A melodia que se segue é uma das mais memoráveis e poderosas que já tive a oportunidade de ouvir [e mesmo que os gostos não se discutam, acho que neste ponto, pelo menos, posso fazer-vos concordar comigo, certo?]. Os teclados são hipnotizantes e o ritmo encantatório. Os WT convidam-nos a entrar no seu mundo e este não poderia parecer-nos mais fascinante. As guitarras recriam a melodia dos teclados e a música sobrepõe-se em camadas, por debaixo dos guturais de Robert. Guturais que nunca tiveram muito peso na música dos WT, mas que eram algo novo e fresco em 1997 - época de glória do esquema Beauty and The Beast, que os WT tão bem souberam adaptar à sua sonoridade. Na faixa Enter, os guturais fazem o contraponto com o tom mais feérico de Sharon, numa música cujo formato não é de todo convencional. O refrão acaba por ser o momento mais suave de toda a composição, com sintetizadores subtis e Sharon cantando em tom melancólico, até nova aparição dos grunts e mergulho na melodia hipnótica. Conclusão: Enter é uma faixa obrigatória para qualquer apreciador de metal sinfónico e melódico [eu diria mesmo para qualquer apreciador de metal], uma pérola de peso e harmonia. Incontornável.

A suavidade de Pearls of Light mostra-nos o outro lado dos Within Temptation, que já se deixava entrever em Restless. O colectivo holandês é mestre na melodia e esta faixa é um exemplo disso mesmo. Sintetizadores e teclados fantasiosos, até à chegada das guitarras e bateria, naquele que é mais um refrão de qualidades líricas notáveis. Sharon utiliza, a um dado momento, o seu timbre mais lírico, que contribui para acentuar o encantamento em que este tema envolve o ouvinte.

Em Deep Within mergulhamos na veia black metal melódico dos WT. Vocais entregues a George Oosthoek – na época, vocalista dos já extintos Orphanage – e total ausência da voz de Sharon. Refrão vibrante, mais uma melodia hipnótica, acelerações breves intercaladas com ritmos mais compassados. Os WT provam que nem sequer precisam de uma voz melodiosa para serem melódicos.

Gatekeeper é uma faixa maioritariamente instrumental, com uma estrutura complexa que hoje seria impensável num trabalho dos WT [ainda assim, uma inspiraçãozinha nesta Gatekeeper num álbum futuro e eu não me queixava]. Esta é a faixa por excelência da conjugação das melodias dos teclados com o peso das guitarras. Inspiração lírica negra e opressiva, muito bem interpretada por Sharon.

Grace continua na mesma linha, embora com maior participação vocal. O refrão não nos cativa à primeira, mas após algumas audições, lá fica por uns tempos. O destaque vai para… a melodia, claro. Esta faixa, em todo o seu peso de verdadeiro metal, embala-nos e transporta-nos para longe. A voz de Sharon assume perfeitamente as suas duas vertentes - o seu carácter mais etéreo e encantatório e o seu lado mais tenebroso e vibrante. Uma ambiguidade em que se especializará nos anos seguintes e na qual ninguém, até hoje, a conseguiu igualar. Segue-se Blooded, um somatório interessante do que a banda fazia na época a nível instrumental.

Enter termina com aquele que é um dos melhores temas de sempre dos WT. Falo de Candles, que é tudo aquilo que, na minha humilde opinião, faz dos WT os WT e não outra banda qualquer. E embora a descrição de uma música, seja ela qual for, fique sempre aquém da música em questão, aqui vai uma tentativa. Suavidade. Sharon e o seu timbre mais etéreo. Este é apenas o mote, porque o que se segue é uma ambiência de obscuridade, mistério e peso. Estamos perante um trabalho lírico de grande beleza e uma composição musical e instrumental mágica. Após o manto tecido pelos sintetizadores, entra um piano sóbrio. E depois aquela bateria e aquelas guitarras. As adequadas. O tom etéreo de Sharon torna-se inatingível, até os grunts de Robert nos fazerem descer à terra, deitando-se sobre a melodia viciante do piano. Tudo se combina numa quase perfeição. E só não digo perfeição, porque tive a oportunidade de ouvir, mais recentemente, uma interpretação deste tema ao vivo e, essa sim, foi perfeita, porque juntou a qualidade e profissionalismo dos WT de hoje à magia do que faziam em 1997.



Tracklist:
1. The Dance
2. Another Day
3. The Other Half (of Me)












Um ano depois, a banda lançava o primeiro (e único) EP da sua carreira. The Dance apresentava três novos temas. No que respeita aos teclados, o som do piano deixa de ter tanta presença e investe-se mais no som característico do órgão propriamente dito, tornando a sonoridade mais pesada e obscura. Tratava-se de mais um passo na direcção de Mother Earth.

A faixa título, The Dance, só é equiparável à própria Enter em peso e força. Absoluto predomínio do órgão que discorre uma melodia perturbadora, mas ainda mais perturbador é o tom que Sharon utiliza. A sua voz soa absolutamente malévola, naquela que é a faceta que mais gosto no seu timbre e que será mais profundamente explorada no álbum seguinte. O diálogo Beauty and The Beast marca presença, assim como uma bateria mais variada e rápida, que sossega no já característico momento lento e dramático.

Another Day é uma faixa pesada e teatral, com teclados, coros sintetizados e guitarras arrastando uma melodia dolorosa. A voz de Sharon paira algures entre o céu e a terra, crescendo em intensidade até se tornar soberana de toda a composição.

Ainda neste EP, a banda traz-nos uma das suas melhores malhas sonoras – The Other Half (of Me) é capaz de ser tudo o que um metaleiro mais tradicional pode desejar de uma banda de metal sinfónico. Este tema é veloz – mais veloz do que qualquer coisa que os WT haviam feito até esta altura – e, ainda hoje, é um dos temas mais rápidos do seu repertório. A melodia vertiginosa que abre este faixa é conhecida de qualquer fã. A velocidade das guitarras imprime uma força única a esta faixa, que é a incorporação mais que perfeita do formato Beauty and The Beast - o diálogo entre Luz e Sombra, Bem e Mal, a Bela e o Monstro, desenrola-se por entre a fúria das guitarras e da secção rítmica.

Enter não é o melhor álbum dos WT. Não é o melhor a nível de produção nem a nível instrumental [e só não digo o mesmo em relação às letras, porque tenho por estas uma estranha mas profunda afeição]. Ainda assim, é a estreia brilhante dos WT. Neste álbum, e no próprio EP, encontram-se algumas das melhores composições do colectivo. E também está aqui a receita daquilo que fazem hoje – uma melodia inspirada, pensada e construída para se entrelaçar com o peso do metal, uma bateria já nesta altura bem característica e uma estrutura lírica que se reveste de um carácter poético. É também nestes dois registos que podemos escutar o grito de uma voz excepcional, que cresceu em domínio e beleza, tornando-se numa das melhores vozes femininas do metal.

Destaques:
Restless, Enter, Candles, The Dance, The Other Half (of me)


16.8 valores em 20

Inês Martins (Lua Minguante)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

REVIEW - Battlelore – The Last Alliance [2008]

Tracklist:
1 - Third Immortal
2 - Exile The Daystar
3 - The Great Gathering
4 - Guardians
5 - The Voice Of The Fallen
6 - Daughter Of The Sun
7 - Green Dragon
8 - Awakening
9 - Epic Dreams
10 - Moontower
11 - The Star Of High Hope


E, finalmente, chegamos ao fim da nossa jornada através da discografia dos Battlelore, com o seu mais recente lançamento, intitulado The Last Alliance. Após um mês inteiramente dedicado à banda e, sobretudo, às duas Senhoras do Metal que a compõem, nada do que eu possa escrever nesta última review vai ser uma novidade para os nossos leitores… bem, quase nada, porque após um lançamento tão atípico como o Evernight [2007], estes finlandeses ainda conseguem surpreender-nos.

E, desta vez, a questão que se impõe é: volvidos quase dez anos de carreira, e cinco trabalhos de estúdio, o que é que os Battlelore nos trazem de novo? Resposta: nada… ou quase nada. Em The Last Alliance o colectivo limitou-se a adaptar as mesmas fórmulas que utilizou em trabalhos anteriores: os contrastes vocais, os teclados proeminentes, influências folk. Boas/Más (riscar uma das opções) notícias: depois de um Evernight a negro e cinzento, os Battlelore estão mais épicos do que nunca. Boas notícias (e estas são realmente boas): maior variação rítmica, vocalizações mais diversificadas com a inclusão de algumas vozes limpas. E as (inevitáveis) más notícias: as guitarras voltaram a ocupar o seu lugar no background. Teclados ao poder!... pelo menos na maioria das faixas porque – eu avisei que havia surpresas! – temos algumas felizes excepções.

Third Immortal é um bom tema de abertura, que remete para os tempos de Third Age of the Sun [2005], com os teclados e a voz de Kaisa a comandar, e um refrão catchy. Por outro lado, Exile the Daystar revisita a melancolia de Evernight, com Kaisa a recuperar o seu tom mais suave e expressivo. É aqui que as vocalizações limpas fazem a sua primeira de muitas aparições. Após esta visita ao passado, seguem-se dois temas de peso na verdadeira acepção da palavra: The Great Gathering e Guardians são, talvez, as composições mais pesadas e intensas da discografia recente dos Battlelore. Tomi assume o comando em ambas as faixas, com Kaisa limitada aos refrões e a alguns apontamentos vocais. As guitarras são poderosas com riffs eficazes, e a intensidade alcança as proporções do… pedal duplo. Eu não disse que os Battlelore ainda eram, apesar de tudo, capazes de nos surpreender?

Um dos grandes temas, que merece o seu devido destaque, é Daughter of the Sun, no qual os Battlelore têm um daqueles rasgos de genialidade que me fazem ter esperança no futuro deste colectivo. Começa como uma balada e vai-se desenvolvendo num crescendo, até Kaisa ceder lugar aos guturais de Tomi, os teclados às guitarras rasgadas. Momentos de calmaria intercalam-se com outros tempestuosos, vozes masculinas limpas, femininas e guturais entrelaçam-se, teclados e guitarras lutam pela supremacia, até ao clímax final.

Após este grande momento, os Battlelore voltam a repetir-se até à exaustão e, a partir daqui, ficamos com aquela sensação um tanto amarga de “já ouvimos isto antes, não ouvimos?”. Uma vez mais, é preciso frisar: estes senhores e senhoras são bons naquilo que fazem, mas estão a reutilizar as fórmulas dos seus nove anos de carreira.

Felizmente, brindam-nos com outro grande momento na última faixa, The Star of High Hope que, tal como Exile of Daystar, revisita os tempos de Evernight. Voltamos a ter o prazer de escutar a flauta de Maria e algumas passagens acústicas, no tema mais atmosférico do álbum.

Os Battlelore são uma banda com potencial, mas parece que existe uma barreira que os impede de ascender a uma patamar criativo superior. Embora sejam talentosos – como eu tenho vindo a enfatizar ao longo desta ronda de reviews – estão presos a receitas gastas e a uma certa mediocridade, como se temessem atingir todo o seu potencial. Creio que neste momento da sua carreira se encontram numa encruzilhada: ou continuam a reciclar ideias do passado e se perdem entre as centenas de bandas do mesmo estilo, ou arriscam um álbum surpreendente, como fizeram em Evernight. Porque este The Last Alliance é – apesar de alguns momentos de brilhantismo – mais do mesmo.

Destaques: The Third Immortal, Exile the Daystar, The Great Gathering, Daughter of the Sun, The Star of High Hope


Cláudia Rocha, Lua Crescente


15.3 valores em 20

Line-up: Kaisa Jouhki (voz), Maria (teclados e flauta), Henri Vahvanen (bateria), Jussi Rautio (guitarra), Jyri Vahvanen (guitarra), Timo Honkanen (baixo), Tomi Mykkänen (voz)

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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

REVIEW - Kivimetsän Druidi - Shadowheart [2008]

Trackilist
1. Northwind – Prelude
2. Blacksmith
3. Jäässä Varttunut
4. Halls of Shadowheart
5. Pedon Loitsu
6. Burden
7. The Tyrant
8. Tiarnäch - Verinummi
9. Verivala
10. Korpin Laulu
11. Mustan Valtikan Aika


O seu nome é bastante impronunciável para os europeus do sul do continente: Kivimetsän Druidi, o que em finlandês quer dizer exactamente “Druida da Floresta de Pedra”. Já estão a ver onde isto vai dar, não já? Não estão nada. Ora passo a explicar.

O projecto KmD (permitam-me a simplificação) começou por ser uma ideia dos irmãos Koskinen, Joni Koskinen, guitarrista e Antti Koskinen, teclista. A inspiração para tal nome veio do primeiro, que se encontra a escrever um livro que conta a história da “Terra da Montanha de Cristal e da Floresta de Pedra”. A passagem do livro para a música fez-se de numerosas demos (datando a primeira de 2003) e EPs, que culminaram com um contrato discográfico com a gigante Century Media e o lançamento, em Outubro passado, do álbum de estreia Shadowheart.

Biografia à parte, um facto é que este sexteto finlandês esteve de passagem pelo nosso país como banda de suporte dos seus conterrâneos Battlelore, trazendo na bagagem este Shadowheart. A redacção das Senhoras do Metal, com sede e fundações assentes na capital lisboeta, não conseguiu estar presente no concerto que teve lugar no Cinema Batalha (Porto), no passado dia 23 de Novembro. Ainda assim, é importante não deixar passar a data sem uma referência: aplausos para a promotora Big Dog que conseguiu trazer, de uma só vez, tantas bandas de folk metal ao nosso cantinho da Europa – a juntar aos já referidos colectivos finlandeses, os compatriotas Korpiklaani e Falchion. Uma data que terá sido imperdível para os fãs do estilo.

De volta ao tema desta review, é um facto que os KmD são novos nestas andanças e integram um estilo um tanto sufocado com centenas de propostas com a mesma receita. O seu folk/fantasy/symphonic (escolha à vontade do ouvinte) death metal não é uma coisa propriamente original, mas esta banda é relativamente boa no que faz. Shadowheart é um bom álbum de estreia, soando cru e directo, a bateria seca e rápida, as guitarras melódicas enchendo de cor. Os vocais são divididos entre o guitarrista Joni Koskinen (guturais) e o lirismo da voz de Lenni-Maria Hovila (terceira vocalista da banda no período 2004-2008). Liricamente o álbum não foge às temáticas típicas deste subgénero (como já referi, com inspiração no livro da autoria de Joni), sendo que a maioria das temas são cantados na língua materna do colectivo.

Shadowheart começa com o habitual prelúdio musical. Northwind é uma introdução com um tom ligeiramente cinematográfico, no fundo, uma intro como outra qualquer. O que vem a seguir é bem mais interessante, embora não seja propriamente único ou marcante. Destaco Blacksmith, a lembrar provavelmente os antepassados nórdicos destes músicos, com coros masculinos invulgares e interessantes. Além disso, este tema oferece velocidade e fúria viking, que provavelmente terá originado headbanging igualmente furioso no Cinema Batalha. Ritmo cadenciado entre a festa folk e a batalha bárbara, grande parte das vocalizações entregues a Joni Koskinen e aos seus berros death metal razoáveis. Pequenos apontamentos da excelente voz de Leeni-Maria que tem um bom alcance lírico, embora lhe falte versatilidade. No entanto, o seu sotaque cerrado a cantar em inglês soa agradavelmente característico, transportando-nos para os países do norte da Europa.

A viagem entre festa e batalha continua pelos temas seguintes. Jääessä Varttunut dá mais destaque à voz feminina, com as guitarras a tecerem bonitas melodias, sintetizadores dando um colorido folk, enquanto que Halls of Shadowheart tem um tom mais ameaçador e sóbrio, um tom adoptado também ao nível das vocalizações melódicas sob as quais se faz ouvir uma bateria furiosa.

Um dos momentos altos está em Pedon Loitsu, na qual o ritmo de bateria é dominante e os sintetizadores estabelecem uma paisagem rica e profusa em imaginação. Momento alto também para a voz de Lenni-Maria, que tem neste tema a sua melhor prestação, dando a entrever a possibilidade de a sua voz atingir um patamar superior, quem sabe, num próximo registo. Burden é outro grande tema. A melodia cantada por Lenni-Maria capta a atenção do ouvinte, bem longe de ser catchy e ainda assim conseguindo cativar.

The Tyrant é possivelmente a melhor faixa. A melodia é quase viciante, a bateria praticamente raivosa e as vocalizações parecem aqui verdadeiramente sentidas pelos dois vocalistas. O equilíbrio entre peso e melodia é muito bem conseguido, com um momento mais lento (coisa raríssima em Shadowheart) e bem elaborado. Destaque absoluto para o trabalho de Antti Koskinen nas teclas, demonstrando sensibilidade e angústia num momento, para se lançar em melodias mais aceleradas em seguida. Destaque ainda para Korpin Laulu, apenas pela impressionante velocidade das guitarras e bateria em perfeita concatenação furiosa e articulada com momentos mais sincopados.

Para terminar, o tema mais longo com 7 minutos, Mustan Valtikan Aika, que é, por sinal, o mais bem conseguido, contendo toda a originalidade que falta em alguns dos outros (facto que nos pode permitir dizer que não estamos perante mais uma banda de folk/fantasy/symphonic death metal, de receita pronta a consumir e deitar fora). Para começar, Lenni-Maria faz uso de um tom completamente diferente do usado no resto do álbum – mais directo, como quem conta uma história. A fúria cuspida por Joni Koskinen combina gloriosamente com este registo, o que me faz pensar que talvez Lenni-Maria venha a descobrir que não precisa de cantar oitavas impossíveis para ser considerada uma boa cantora. A nível instrumental esta é uma faixa incrível, ainda para mais tratando-se de um álbum de estreia. Este tema passa por diversos momentos, todos eles muito bons – abre com guitarras que dão lugar aos sintetizadores em tons de acordeão melancólico e depois lança-se a festa folk, sempre com os sintetizadores no comando. As guitarras têm um momento só para si lá mais à frente, inclusive trazendo-nos um bonito apontamento acústico e, no final, temos até direito a um incrível (!) solo de guitarra. A pergunta será, porque é que temos que chegar ao fim para ouvir uma peça tão brilhante.

Destaques: Mustan Valtikan Aika, The Tyrant, Blacksmith, Burden, Pedon Loitsu

15,5 Valores em 20

Inês Martins, Lua Minguante

Line-up: Leeni-Maria Hovila (voz), Antti Koskinen (teclado), Antti Rinkinen (guitarra), Atte Marttinen (bateria), Joni Koskinen (voz e guitarra), Simo Lehtonen (baixo)

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