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sábado, 31 de janeiro de 2009

Anneke van Giersbergen lança Pure Air


Anneke van Giersbergen (ex-The Gathering) e a sua banda Agua de Anique lançaram a 30 de Janeiro o álbum Pure Air que, para além de versões acústicas de algumas faixas do debut álbum Air, incluirá colaborações com vários artistas convidados: Sharon den Adel (Within Temptation), Niels Geusebroek, Marike Jager, Danny Cavanagh (Anathema), John Wetton (King Crimson, Asia) e Arjen Lucassen (Ayreon).

Segundo Anneke: “Pure Air é um álbum acústico de baladas e duetos. Estou muito orgulhosa de todos os diferentes vocalistas e instrumentistas que trabalharam comigo neste álbum! Nos últimos anos fiz algumas participações especiais para vários artistas. Desta vez quis ser eu quem convida um conjunto fabuloso de músicos para o meu álbum”.

A recordar, uma destas participações foi no single Scorpion Flower, tema de Night Eternal, o último álbum dos portugueses Moonspell, lançado no ano passado.

Neste momento, a vocalista está a preparar dois live sets diferentes: um semi-acústico (na sequência do lançamento de Pure Air) e um mais rock para os seus próximos concertos na Grécia e na América Latina.

Por enquanto, está já revelada a tracklist de Pure Air:

1. The Blower's Daughter (feat. Danny Cavanagh dos ANATHEMA)
2. Beautiful One (feat. Niels Geusebroek dos SILKSTONE)
3. Wild Flowers
4. Day after Yesterday (feat. Marike Jager)
5. Come Wander With Me (feat. Kyteman)
6. Valley of the Queens (feat. Arjen Lucassen dos AYREON)
7. To Catch a Thief (feat. John Wetton dos KING CRIMSON e ASIA)
8. Ironic
9. What's the Reason? (feat. Niels Geusebroek)
10. Yalin
11. Somewhere (feat. Sharon den Adel dos WITHIN TEMPTATION)
12. Witnesses
13. The Power of Love

Site Oficial

Myspace

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

REVIEW - Within Temptation - The Heart of Everything [2007]

Tracklist:
1. The Howling
2. What Have You Done feat. Keith Caputo
3. Frozen
4. Our Solemn Hour
5. The Heart Of Everything
6. Hand Of Sorrow
7. The Cross
8. Final Destination
9. All I Need
10. The Truth Beneath The Rose
11. Forgiven
12. What Have You Done (Rock Mix)


A saída do single What Have You Done causou, em 2007, o pânico entre ouvintes de metal puristas e não puristas, e entre os fãs do colectivo holandês. Longe, muito longe, do que foi Mother Earth, e ainda um pouco longe de um The Silent Force, o single escolhido - um hit rock cantado por Sharon den Adel e Keith Caputo dos Life of Agony - apresentava a banda com uma nova sonoridade, e isto não seria necessariamente bom. Felizmente que este excelente tema rock radio-friendly (que teve o mérito de levar os Within Temptation aos EUA) não tinha quase nada a ver com o resto do álbum, falhando em representá-lo como primeiro single. O quarto álbum de estúdio do colectivo holandês não se limita a ser mais um capítulo de uma já considerável carreira, mas um passo em frente ou, se quiserem, um capítulo de destaque com alguns toques de brilhantismo.

The Heart of Everything (THOE) é o álbum em que as guitarras ganham mais destaque, estando ainda longe da notoriedade que, na minha opinião, mereciam. Guitarras eléctricas e acústicas, explorando malhas rock e metal, tornam-se neste álbum mais presentes do que em qualquer outro da carreira da banda. O que continua a estar majestosamente omnipresente é a melodia excepcional dos teclados a cargo da mente e mãos criativas de Martjin Spierenburg, autor, em conjunto com Robert Westerholt e Sharon den Adel, da maioria dos temas. Produzido por Daniel Gibson, THOE traz-nos um conjunto de excelentes melodias nas quais os teclados brilham e as guitarras se impõem um pouco mais, contribuindo para tornar este um dos registos mais obscuros da carreira dos WT. Acompanhando a tendência dos últimos tempos (ou, quem sabe, liderando-a), Sharon den Adel entrega-se a vocalizações rock, as mais graves de toda a sua carreira, levando a sua voz por caminhos nunca antes explorando, utilizando com mestria ambas as tonalidades, rock e lírica, do seu timbre e fazendo uso de técnicas vocais distintas de registos anteriores. THOE é, sem qualquer dúvida, o registo da excelência da técnica vocal de Sharon den Adel.

O álbum abre com a bombástica The Howling, que começa suave para se tornar numa malha de velocidade e peso. Orquestrações e guitarras unem-se para nos dar espectáculo e a eles junta-se uma Sharon que canta em tom praticamente irreconhecível. Por entre sussurros, a sua voz surge grave e rouca, arranhando tons obscuros, nunca antes utilizados na sonoridade da banda. Refrão absolutamente viciante e vicioso, com as guitarras sempre omnipresentes, oferecendo-nos paisagens sonoras gratificantes.

What Have You Done é o tema controverso do álbum, precisamente por apelar a um lado mais comercial. A escolha para single era inevitável e falhou (como na grande maioria dos singles escolhidos pelas editoras) em representar a sonoridade deste registo. Alguns fãs mais puristas podem até considerar que, com esta faixa, os WT traem a sua própria sonoridade, mas eu tenho pouco de purista. Trata-se de um dueto muito bem conseguido entre Sharon e Keith Caputo e que não deixa em nenhum ponto de evidenciar as marcas da sonoridade dos WT. Tema orientado pelas guitarras, com um refrão claramente orelhudo e que resulta da bonita combinação entre ambas as vozes, que se harmonizam num diálogo de contrastes. E apesar de todos os comercialismos que esses fãs puristas aqui encontram (e que estão lá), também estão presentes todas as características que fazem deste tema um tema WT – melodias em profusão, sintetizadores, vocalizações fortes e guitarras adicionando peso.

Frozen tem tudo para ser uma balada rock. Desde a sua entrada discreta e depois imponente, passando pelas vocalizações dramáticas e emocionais de Sharon den Adel, que se exprime sobre uma guitarra acústica ainda mais dramática, até ao refrão cantado como um grito de desespero numa melodia inevitavelmente catchy, tudo concorre para um excelente tema de gothic rock/metal. O ouvido mais experimentado em múltiplas audições pode surpreender-se ao descobrir a voz do guitarrista Ruud Jolie em backing vocals.

Our Solemn Hour é só um dos melhores temas de sempre da banda. Não é fácil decidir por onde começar numa faixa que tem tudo do bom e do melhor – desde refrão orelhudo, a coros gregorianos, passando por guitarras e melodias viciantes. Esta faixa é um somatório de tudo o que de melhor os WT sabem fazer. Inicialmente, a voz de Sharon canta quase num sussurro – "Sanctus Espiritus" – e ouvimos o discurso de Winston Churchill, transportando-nos para o cenário da Segunda Guerra Mundial. Um coro de vozes explode e com ele a música. A voz de Sharon desce ao mais profundo desespero, os sintetizadores servindo-lhe de tapete até as guitarras nos atingirem como se nos encontrássemos no meio do campo de batalha. O refrão é das coisas mais catchy alguma vez compostas por uma banda de metal sinfónico. Fugir-lhe é impossível. Lá mais para frente temos direito a solo de guitarra [e que solo!], cortesia de Ruud Jolie.

The Heart of Everything é o tema título deste álbum e possivelmente uma das músicas mais negras da discografia dos WT. Introdução épica e dramática com a voz de Sharon a erguer-se numa melodia e depois guitarras ao poder e estamos perante a composição onde elas têm um destaque fundamental. A voz de Sharon percorre novos trilhos, mais grave do que nunca, rodeada pelas malhas sucessivas das guitarras, concorrendo para a criação de uma atmosfera obscura. O melhor desta música não é, infelizmente, o refrão – passa-se bem por ele quase sem o notar. O que esta música tem de melhor é mesmo todas as restantes partes, a forma como a voz de Sharon se encaixa com habilidade nas malhas tecidas pelas guitarras, destilando uma letra acusatória, a lembrar um purgatório de destino para a alma humana. A finalizar, Sharon rende-se finalmente a uma interpretação mais lírica, erguendo-se etérea e angélica com as imparáveis guitarras por baixo. Uma das melhores prestações vocais de sempre.

Hand of Sorrow é mais um incrível tema épico com selo WT. Tem tudo aquilo em que este colectivo se especializou ao longo destes anos – melodia encantatória de piano na abertura, bateria e guitarras a explodirem em seguida, e os teclados de Martjin Spirenburg a levarem-nos numa dança até Sharon começar a cantar/contar mais uma história. A música é, sem dúvida mais alegre, do que a história que é contada: uma história de lutas e perdas inspirada na figura de William Wallace. Mas os WT são únicos na sua forma de contar histórias e nestes quase 6 minutos oferecem-nos um dos melhores refrães da sua carreira. De destacar o momento mágico recorrente em que a música serena e Sharon é deixada quase sozinha para uma interpretação vocal carregada de emoção.

The Cross é uma preferência pessoal e, para mim uma, das interpretações emocionais – vocais e instrumentais – mais belas por parte dos WT. Sharon den Adel garante ter demorado um ano para a compor música e letra, mas valeu a pena o tempo demorado. A voz de Sharon carrega, como sempre, toda a emoção consigo, que também não falta às guitarras incrivelmente dramáticas, que convergem num refrão absolutamente inesquecível. Aliás, para mim, as guitarras são mesmo o que este tema tem de melhor: insidiosas e penetrantes. Por mais vezes que ouça esta The Cross nunca deixo de descobrir nela elementos novos – ou é o piano num momento inesperado, ou os violinos em lamentos emotivos e sempre aquela voz, negra e profunda, angélica e desesperada. Sem dúvida uma das melhores intérpretes de metal da actualidade.

Final Destination, inspirada no filme com o mesmo nome, é uma faixa musicalmente inferior às restantes. Não quero com isto dizer que é uma faixa má, mas simplesmente que não é tão boa, nem tão emocionalmente verdadeira como as outras. Na verdade, talvez a sua localização no álbum também não seja a melhor, uma vez que quase desaparece entre a majestosa The Cross e a balada dramática All I Need. Ainda assim, somos brindados por uma excelente combinação entre as melodias dos sintetizadores e as guitarras.

All I Need poderia ser a música mais cliché de sempre a ter o selo WT, ou não estivesse tão bem feita. A qualidade desta típica balada é reforçada pelo facto de os WT terem sido sempre tão pouco ortodoxos na composição das suas baladas, quase todas elas atípicas e fugindo a estruturas ditas comuns. All I Need não foge a nenhum lugar-comum – desde a estrutura à letra – e, ainda assim, soa incrivelmente bem. Trata-se de uma composição em que a guitarra acústica tem destaque, seguida de uma bateria apropriadamente lenta, sobre a qual a voz de Sharon soa melancólica e frágil. Numa balada com tudo para ser cliché, os WT demonstram que dominam como ninguém os segredos da melodia, introduzindo no momento certo a guitarra eléctrica, conduzindo a música a um clímax apropriado e deixando depois a voz de Sharon dar o seu espectáculo.

The Truth Beneath The Rose é um colosso épico, a lembrar uma The Promise (Mother Earth). Composição épica, melodia negra e opressiva, letra de contornos obscuros e inspiração num livro de autoria de Dan Brown bem conhecido do mundo ocidental. Tudo o que esperamos de uma faixa épica está presente – entrada majestosa, coros gregorianos em profusão e cantando em latim, guitarras adicionando peso e uma das melhores interpretações líricas por parte de Sharon. Este tema leva-nos, em certos pontos, de volta às origens da banda, com a bateria a soar agradavelmente semelhante aos seus primórdios sonoros.

Forgiven é mais uma das baladas atípicas que esta banda tão bem sabe criar. Martjin Spierenburg ao piano e Sharon na voz, pouco mais é necessário para criar um dos melhores temas da discografia da banda. Basta a belíssima composição da melodia para piano e uma interpretação doce e emocional.

Sem erguerem muito a fasquia, os WT foram um pouco mais longe com este álbum. O apurado sentido melódico que sempre possuíram é levado ao extremo neste registo que nos oferece um conjunto impressionante de refrães marcantes, letras extremamente bem construídas e melodias fortes. O destaque dado às guitarras torna este um disco com um sentimento mais obscuro, ao mesmo tempo que Sharon atinge o apogeu da sua interpretação vocal. É caso para perguntar não What Have You Done? Mas sim What Will They Do Next? Esperemos para ouvir.

18.5 valores em 20

Inês Rôlo Martins (Lua Minguante)

Line-up: Sharon den Adel (voz), Jeroen van Veen (baixo), Martijn Spierenburg (teclado), Robert Westerholt (guitarra), Ruud Jolie (guitarra), Stephen van Haestregt (bateria)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

REVIEW - Within Temptation - The Silent Force [2004]

Tracklist
1. Intro
2. See who I am
3. Jilian (I'd give my heart)
4. Stand my ground
5. Pale
6. Forsaken
7. Angels
8. Memories
9. Aquarius
10. It's the fear
11. Somewhere
12. A dangerous mind
13. The Swan Song



Ao lançamento do brilhante Mother Earth (ME), em 2001, seguiu-se um intenso período de tour, no qual os Within Temptation actuaram nos principais festivais europeus. Dessa longa sucessão de concertos resultou um DVD ao vivo – Mother Earth Tour – e o início da ascensão da banda holandesa. Entre 2001 e 2004 deu-se um interregno no que diz respeito a trabalhos de estúdio, quebrado apenas pelo o EP Running up that hill, uma cover de Kate Bush. No entanto, este pequeno aperitivo não diminuiu a sede dos fãs por um novo álbum de longa duração. Após o sucesso de ME, tanto junto da crítica como dos fãs, as expectativas eram altas.

The Silent Force (TSF) foi lançado no final de 2004 e, embora tenha sido o álbum que catapultou os WT para uma espécie de estrelato raramente atingido por bandas de metal, graças ao qual atingiram novos públicos, muitos fãs ficaram desiludidos e alguma crítica especializada foi implacável.

A verdade é que se deu uma viragem no som que os fãs mais antigos consideravam marcadamente WT. TSF não tem os traços doom de Enter e The Dance, e afastou-se um pouco do gothic/symphonic metal com influências new wave de ME. Tenho algumas dúvidas se sequer podemos considerar TSF um álbum de Metal e, ainda que o queiramos fazer cair nessa categoria, percebemos à primeira audição que se trata de um híbrido com influências rock, metal e muito pop.

As questões impõem-se: os WT venderam-se, aproveitando a onda de sucesso de bandas rock com vocalista feminina iniciada pelos Evanescence? É TSF um álbum radio friendly que atrairá públicos que, por norma, não ouvem metal? A resposta é um quase indubitável "sim". No entanto, outra questão se levanta: é TSF um mau álbum? E aí minha resposta é um rotundo "não".

Apesar das mudanças significativas no som, das quais falarei mais à frente, este é um álbum facilmente identificável como sendo WT. Estes holandeses têm uma capacidade rara de criar álbuns completamente diferentes uns dos outros e, ainda assim, manterem o seu estilo muito próprio. Um dos motivos é Sharon den Adel, que é inconfundível apesar explorar novas formas de interpretar, surpreendendo-nos com versatilidade da sua voz.
Em TSF, Sharon abandonou as notas mais agudas (embora se tenha mantido o registo agudo) e os seus tons mais malevolentes, que foram tão marcantes em ME. Desta vez, optou por um estilo mais suave e angelical, e também mais acessível, mas que vai totalmente ao encontro do espírito de TSF.

As mudanças mais radicais sentidas pelos fãs, e sobretudo pelos admiradores de ME, ocorreram principalmente na estrutura dos temas. Ao invés das estruturas relativamente complexas a que os WT nos haviam habituado, optaram por fórmulas mais simples e mais pop. A inclusão de uma orquestra e de um coro também não pode deixar de ser notada, sobretudo tendo em conta que as guitarras foram quase totalmente obliteradas pela explosão orquestral. Finalmente, a aposta em temas radio friendly, como é o caso de Stand my ground, Angels ou Memories.

Este foi o primeiro álbum que os WT abriram com uma intro, que é tão épica como seria de esperar, com especial ênfase no coro que contrasta com a suavidade da voz de Sharon, que utiliza o seu tom mais operático. Da Intro passamos rapidamente para See who I am, uma das mais bombásticas do álbum, em que o coro e a orquestra são utilizados em full power. O refrão é catchy e épico, característica comum de uma boa parte das faixas de TSF. Outra característica presente neste álbum, e na grande maioria dos temas escritos pelos WT é a força das letras, profundas e emocionais, e que nesta See Who I Am são vibrantes e desafiadoras.

Mas a grande pérola de TSF e, na nossa opinião, uma das melhores composições da sua carreira, é Jillian (I'd give my heart). Este é um tema que desafia qualquer classificação, que fica perfeitamente alinhado num álbum de metal, mas também não cairia nada mal num musical. A voz de Sharon soa mais angélica do que nunca, alcançando notas puras e cristalinas; o trabalho orquestral é soberbo e o coro causa arrepios, num refrão repleto de beleza e força. São os WT no seu melhor.

Stand My Ground
foi o primeiro single, e o cerne da polémica aquando do lançamento de TSF. É de facto uma faixa especificamente pensada para ser tocado nas rádios, com fortes influências rock e um refrão extremamente catchy. Ainda assim, trata-se de um tema típico da sonoridade do colectivo holandês e pouco ou nada tem a ver com a referida banda (ou devo dizer, artista a solo?) americana. À melodia não falta intensidade, as guitarras e o imaginário tipicamente WT.

Pale
vai beber da fonte ME, com reminiscências celtas na melodia. Um tema entre o luminoso e o obscuro, com a voz de Sharon suave sobre um piano delicado e uma secção rítmica a impor uma cadência dolente e arrastada.

Forsaken
é outra das brilhantes composições da carreira dos WT. A voz de Sharon faz-se anunciar angélica e os coros explodem em seguida, com guitarras lançando-se depois. A história que Forsaken nos traz não poderia ser mais apropriada à história da humanidade e ao momento histórico de crise e convulsões que estamos a viver. O refrão é de um grande brilhantismo melódico, enquanto os coros e a letra que se recusam a sair da cabeça do ouvinte.

Seguem-se Angels e Memories, dois temas com nada em comum a não ser o facto de terem passado um sem número de vezes nas rádios um pouco por todo o mundo. Ambos sofrem desse mesmo mal, no sentido em que, depois de tanto os ouvirmos, o inevitável tédio invade-nos. Angels, com a sua toada mais rock, torna-se um pouco menos saturante. Já Memories é uma excelente balada, como já é tradição desta banda. Os WT brindam-nos com o som de violinos, a melodia de piano é encantadora, a voz de Sharon bela como sempre. O lado mais suave e romântico dos WT evidencia-se grandemente neste tema, que foi praticamente assassinado pela fúria das rádios.

Aquarius
está ao nível de uma Forsaken. Trata-se de um dos temas mais obscuros do álbum, com a voz de Sharon a aflorar um tom mais negro e perigoso. Uma grande interpretação vocal para uma das faixas mais metal deste álbum. Camadas de sintetizadores, bateria presente, guitarras pesadas.

It’s the Fear
entra com um piano saltitante e é um dos temas mais divertidos do álbum, apesar da letra sombria. Uma malha nitidamente rock, com coros lançando mais um refrão pegajoso.

Somewhere
é uma das melhores baladas de sempre da carreira dos WT. A música é uma pérola de inspiração, com uma letra arrebatadora. A voz de Sharon cria um tapete musical sobre o som do piano e da bateria.

A edição especial de TSF oferecia ainda duas faixas bónus: A dangerous mind e The swan song. A primeira não nos trás realmente nada de novo. Trata-se de um tema rock, que se encaixa perfeitamente na ambiência de TSF. Por seu lado, The swan song é mais uma balada WT, que nos oferece uma melodia bela e poderosa e uma composição lírica de carácter poético, com o piano e os violinos a darem-nos um belíssimo espectáculo.

Com TSF os WT deram um salto quantitativo – fazendo chegar a sua música a públicos mais diversificados e abrangentes. Independentemente das contrapartidas que possa ter, TSF é um bom álbum, um álbum com selo WT, que nos traz toda a beleza do sinfónico e do orquestral, sem esquecer algum peso e apresentando mais um conjunto de melodias inesquecíveis. Pode ser chocante para os metaleiros mais empedernidos – aqueles que apreciaram os lançamentos mais antigos do colectivo – verem as suas irmãs mais novas, vestidas com roupas coloridas, a escutarem uma banda que, até há bem pouco tempo, se encontrava no underground. No entanto, os WT têm o mérito de terem criado um álbum acessível sem sacrificarem a qualidade e a honestidade daquilo que fazem. Se mantiverem a mente aberta, poderão apreciar a beleza deste TSF.

Destaques:
See Who I Am, Jillian, Forsaken, Aquarius, Somewhere, The Swan Song



17 valores em 20


Cláudia Silva, Lua Crescente
Inês Rôlo Martins, Lua Minguante

Site oficial
Myspace

Line-up: Sharon den Adel (voz), Jeroen van Veen (baixo), Martijn Spierenburg (teclado), Robert Westerholt (guitarra), Ruud Jolie (guitarra), Stephen van Haestregt (bateria)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

REVIEW - Within Temptation - Mother Earth [2001]

Tracklist

1. Mother Earth
2. Ice Queen
3. Our Farewell
4. Caged"
5. The Promise
6. Never-Ending Story
7. Deceiver of Fools
8. Intro
9. Dark Wings
10. In Perfect Harmony

Bonustracks
11. Restless
12. Bittersweet
13. Enter (live at Utrecht 1998)
14. The Dance (live at Utrecht 1998)



Se disser que sempre desejei fazer uma review deste álbum, talvez seja difícil de acreditar que foi a review que tive mais dificuldade em escrever. Conheço este Mother Earth (ME) melhor do que a palma da minha mão. Conheço cada nota, cada palavra cantada. Para escrever sobre ele vejo-me obrigada a ultrapassar esses valores emocionais e prender-me aos estritamente musicais. A isto vem juntar-se a premissa que vai justificar tudo o que vou escrever em seguida: este é o álbum da minha vida. Marcou uma viragem para mim em termos musicais e pessoais e tem, por isso, um lugar de destaque entre as minhas preferências. Portanto, esta review será total e completamente parcial. Considero que os Within Temptation (WT) cresceram e se tornaram excelentes no que fazem, mas ME é, e será sempre, um clássico do metal sinfónico e o diamante em bruto da uma carreira fulgurante.

Primeiro, os inevitáveis dados informativos. ME é o segundo longa-duração de estúdio dos WT e a sua afirmação dentro daquilo que melhor se fazia no plano do metal sinfónico. No que respeita às letras, estas reflectem um imaginário fantástico, entre temas de conotação amorosa, mas também com um pendor claramente crítico de reflexão sobre a actualidade. Os WT compõem melodias brilhantes de piano e teclados, algo evidente neste álbum que é no fundo a harmonização quase perfeita entre peso e melodia.

O tema título é a obra-prima por excelência dos WT. Esta faixa tem um significado muito especial para mim e a tentativa de fazer uma descrição dela é um trabalho deveras inglório. Quem nos lê, conhece com certeza Mother Earth e tem as suas próprias sensações e emoções ao ouvi-la. Em termos estritamente musicais, estamos perante uma composição muito bem construída, que começa com o som dos teclados dançantes, aos quais se juntam as guitarras e secção rítmica. Esta é capaz de ser a introdução mais avassaladora que já ouvi num tema de metal sinfónico. As influências celtas harmonizam-se de forma plena com o peso do metal. A bateria constrói um ritmo coeso e tribal que guia a composição, marcando o momento mais lento entregue aos coros gregorianos. O que dizer da voz de Sharon den Adel? Bom, só ela é capaz de alcançar tais notas desta forma, ponto final.

Segue-se o hino da banda, o single que a catapultou para uma fama que ate aí desconheciam. Ice Queen foi o tema que me deu a conhecer os WT. A minha primeira reacção foi pensar que nunca tinha ouvido nada assim. E não há dúvida de que não soa a nada do que se fazia na época: era forte e catchy, absolutamente novo e fresco. Desnecessário será referir os conhecidíssimos “oohooh”, aquele súbito silêncio antes de a música explodir com um riff de guitarra que se recusa a sair da nossa cabeça por muito tempo. Mas realmente impressionante é a voz que ouvimos sair das colunas e que me deixou boquiaberta nessa primeira audição. Também nunca tinha ouvido uma voz assim, vibrante e aguda, atingindo notas quase impossíveis. Absolutamente viciante – ou não fosse este o tema que fecha com chave de ouro todos os concertos da banda.

Our Farewell é a balada da carreira dos WT. Com uma melodia de piano bela e complexa, esta faixa é de uma sinceridade e emoção palpáveis. Começa de forma delicada e suave, com a voz de Sharon quente e profunda sobre o piano. Um arrepio percorre o ouvinte quando a bateria e as guitarras se lhes juntam. A música cresce grandiosamente, mergulhando num solo de guitarra e atingindo um pico final, com a voz de Sharon a elevar-se até ao clímax final.

Caged é o tema irmão de Mother Earth, tendo uma estrutura semelhante e um dos meus favoritos. A entrada das guitarras arrepia e a voz desce aos confins da terra e sobe ao céu para nos dar uma das suas melhores prestações neste álbum. Sharon adopta aqui o tom que mais gosto: melífluo e teatral, entrelaçand0-se nos coros dramáticos. As guitarras marcam presença, criando ritmo e adicionando peso.

The Promise é um tema monumental, na verdadeira acepção da palavra. A introdução suave e simultaneamente densa, com o órgão a transportar-nos directamente para tempos antigos, é inesquecível. O som cresce e explode, guitarras e órgão lançam-se numa dança desenfreada, dando lugar à voz de Sharon, que faz uma aparição gloriosa e dramática, que nos introduz nesta história de perda e vingança. Mais uma prestação vocal de excelência, mais um momento musical brilhante.

Neverending Story remete para as influências celtas que se evidenciavam nos WT desta época. Como o nome sugere, trata-se de uma canção-conto, uma estória simples mas produnda, cantada por sobre a melodia de piano e apontamentos de bateria.

Segue-se Deceiver of Fools, uma autêntica epopeia musical e mais um dos grandes temas deste ME. A introdução é magistral contando com a presença de um coro ao qual se junta a voz de Sharon. Uma suavidade perturbadora que cedo dá lugar a momentos verdadeiramente épicos. A bateria faz-se anunciar, seguido dos teclados que tocam uma melodia que mais parece um chamamento para a batalha. A voz de Sharon enceta uma narração cantada que culmina com um dos refrães mais vibrantes da carreira da banda. Como na grande maioria dos temas, a composição lírica de Deceiver of Fools transporta-nos para uma história que carrega consigo uma crítica acutilante ao mundo actual, naquela que é uma das melhores letras que já compuseram. No característico momento mais calmo da música, o piano saltitante tece a melodia complementada pelo tom mais doce de Sharon que se ergue num aviso perturbador, realçado pela música que acelera novamente. Composição finalmente entregue às melodias de teclados e guitarras, até o refrão a dominar novamente e deixar no ar uma questão: “Deceiver of Fools, shall he rule again?

Segue-se um curto interlúdio musical, que concorre para a explosão musical que é Dark Wings, uma das melhores malhas do álbum. Os ritmos sincopados atacam-nos logo ao início e a voz ameaçadora de Sharon canta quase num grito, intercalando-se com um coro de vozes femininas. Nesta composição temos a oportunidade de escutar um excelente momento instrumental com a voz de Sharon a aflorar em devaneios orientais, e os teclados a multiplicarem melodias a grande velocidade. A música serena apenas para acelerar novamente com a entrada dos coros e um formidável solo de guitarra, cortesia do quase lendário Arjen Lucassen (Ayreon).

Perfect Harmony apresenta reminiscências de uma Pearls of Light do álbum Enter, transportando-nos para uma floresta misteriosa e uma estória de encantar. Destaque para as melodias suaves e saltitantes e para a interpretação doce de Sharon.

A reedição de 2003 de ME, inclui ainda 4 faixas bónus: Restless (classical remix), Enter e The Dance (performance ao vivo em Utrecht, 1998) e a faixa inédita Bittersweet, na qual se destaca o som das flautas e piano, naquela que é uma das interpretações mais belas de Sharon.

ME é, para mim, o álbum da carreira dos WT, revelando o seu talento na combinação de atmosferas e peso e na composição de melodias. Aquilo que ainda hoje torna a sonoridade desta banda única é esse conhecimento intuitivo da melodia e a maneira como esta chega até nós, apoiada numa voz única. Toda a técnica musical presente neste álbum baseia-se naquilo que é a chave do que esta banda faz - a emoção. A força emocional de ME é, no fundo, aquilo que lhe dá sentido, aquilo que une todos os elementos que o compõem numa só obra-prima.

Por todas estas razões e mais algumas que deixo à vossa discrição, atribuo a este álbum um valor muito próximo da pontuação máxima: 19.5 e não 20 porque deixo à banda a possibilidade de exceder o seu próprio brilhantismo.

19.5 valores em 20

Inês Rôlo Martins, Lua Minguante

Line-up: Sharon den Adel (voz), Jeroen van Veen (baixo), Martijn Spierenburg (teclado), Robert Westerholt (guitarra), Ruud Jolie (guitarra), Stephen van Haestregt (bateria)

sábado, 13 de dezembro de 2008

REVIEW - Within Temptation - Enter [1997] e The Dance EP [1998]

Tracklist:

1. Restless
2. Enter
3. Pearls of Light
4. Deep Within
5. Gatekeeper
6. Grace
7. Blooded
8. Candles





O acto de me sentar em frente ao ecrã do portátil a ouvir Enter dos Within Temptation (WT) tem, para mim, tudo de familiar e, simultaneamente, de estranho. As músicas são-me tudo menos desconhecidas, mas pensar e escrever objectivamente sobre elas já é uma coisa diferente. Nas milhares de vezes que ouvi este CD, muitos foram os motivos por detrás do acto de carregar no play e escolher uma ou outra faixa. Na base, o sentimento geral: os WT são, desde 2003, a minha banda de eleição. Esse foi, para mim, o ano de viragem em termos musicais. Ouvi pela primeira vez Ice Queen e fui esmagada pela obra-prima que é o álbum Mother Earth. Ainda antes do lançamento de The Silent Force, já tinha ido em busca das chamadas "raridades", entre as quais, este Enter e o EP The Dance. E o deslumbramento continuava – estas eram as músicas mais pesadas que já ouvira na minha vida.

Hoje, seis anos depois, esta afirmação está longe de ser verdadeira, mas o deslumbramento, esse jamais desapareceu ou diminuiu, ou não fossem estes Enter e The Dance dois registos admiráveis. As razões para ouvir a música dos WT passaram a ser diversas e a consciência do acto de carregar no play tornou-se cada vez mais inconsciente. Se queria peso e escuridão, Enter ou The Dance davam-me isso mesmo; ou porque não Gatekeeper, Another Day ou Grace. Se queria suavidade e beleza, a lembrar tempos celtas, tinha a sempre bela Pearls of Light. Ou a fenomenal Candles. Se queria a pureza de uma balada, tinha Restless. Se desejasse velocidade e peso, lá estava The Other Half (of Me). E se qualquer uma destas razões não servisse, havia sempre a saudade do som dos WT nos seus primórdios. Quem os acompanha desde esta altura, ou mesmo antes, sabe do que estou a falar. A produção não é de excelência, os grunts de Robert Westerholt não são os melhores que já ouvimos, a voz de Sharon den Adel não apresenta a qualidade cuidada de hoje. Mas tudo isto não poderia soar melhor aos meus ouvidos.

Enter é o álbum de estreia dos holandeses WT e data dos finais dos anos 90, mais precisamente de 1997. Por esta altura, Robert Westerholt abandonava o seu anterior projecto, os Voyage, e encontrava nos WT a possibilidade de criar a música que sempre tinha desejado ouvir – o peso do metal aliado à melodia da música clássica. E encontrava também, na companheira Sharon den Adel, a voz perfeita para a sua música. À fundação de base juntaram-se Jeroen van Veen (no baixo), Martijn Westerholt nos teclados, o segundo guitarrista Michiel Papenhoeve e Ivar de Graaf na bateria. Estes últimos três abandonaram a formação e foram substituídos, em 2001, pelos músicos actuais. Até aqui nada de novo - uma pesquisa no Google esclarece o ouvinte mais interessado. Se esse ouvinte for à procura do álbum de estreia, motivado pelo último registo do colectivo, provavelmente pensará que está perante uma outra banda. Os WT de 1997 tinham pouco a ver com os WT de hoje, e isto não é uma afirmação de saudosismo dos tempos passados. Não. É uma constatação. Também não quero dizer que perderam qualidade, que “os velhos tempos é que eram”. Não. Os WT actuais estão no topo da sua carreira e, por sinal, de muito boa saúde. E recomendam-se.

Enter é diferente do que fazem hoje em muitos aspectos menos num – é um registo de metal sinfónico/melódico. E digo metal, mesmo, sem ambiguidades, sem qualquer pontada do seu rock actual. Estou a falar de metal lento, pesado e repleto de melodia. Metal gótico, doom, com apontamentos de black metal. Em Enter, a grande maioria dos temas são mais longos do que aquilo a que os WT nos têm vindo a habituar recentemente, o que revela a toada doom bem acentuada deste registo. Mas em 1997, a sonoridade dos WT tinha já aquilo que ainda hoje fascina e é praticamente inigualável – melodias de piano majestosas e envolventes, guitarras harmoniosas e com o peso necessário, uma bateria presente nos momentos certos e um sentido apurado daquilo que procuram musicalmente.

Logo no seu álbum de estreia encontramos alguns dos melhores temas do colectivo holandês. A fórmula musical de Enter - a dualidade Beauty and the Beast - parece gasta nos dias que correm, mas na época era do mais fresco que havia e os WT eram [e ainda são] muito bons no que faziam, sabendo marcar a diferença e começando, já nesta altura, a construir uma sonoridade coesa e inconfundível.

A faixa de abertura do álbum, Restless, é uma das baladas mais marcantes da carreira dos WT. A melodia do piano já se tornou uma preciosidade para os fãs da banda, assim como o ritmo lento e cadenciado. A voz soprano de Sharon den Adel demonstra toda a sua juventude e força – uma voz bela e quente, capaz de atingir oitavas de respeito. Guitarras lentas e dramáticas juntam-se à melodia do piano e a voz de Sharon eleva-se acima desta paisagem de pura beleza. Estavam lançadas as bases para uma sonoridade teatral, no bom sentido do termo. Mas Restless era apenas uma amostra de todo o potencial da banda.

A faixa-título, essa, é mesmo de arrepiar. Não será preciso descrever o som do portão que se abre, a voz masculina que diz: “Welcome to my home” e uma súbita bateria que faz a primeira das suas aparições de imponência A melodia que se segue é uma das mais memoráveis e poderosas que já tive a oportunidade de ouvir [e mesmo que os gostos não se discutam, acho que neste ponto, pelo menos, posso fazer-vos concordar comigo, certo?]. Os teclados são hipnotizantes e o ritmo encantatório. Os WT convidam-nos a entrar no seu mundo e este não poderia parecer-nos mais fascinante. As guitarras recriam a melodia dos teclados e a música sobrepõe-se em camadas, por debaixo dos guturais de Robert. Guturais que nunca tiveram muito peso na música dos WT, mas que eram algo novo e fresco em 1997 - época de glória do esquema Beauty and The Beast, que os WT tão bem souberam adaptar à sua sonoridade. Na faixa Enter, os guturais fazem o contraponto com o tom mais feérico de Sharon, numa música cujo formato não é de todo convencional. O refrão acaba por ser o momento mais suave de toda a composição, com sintetizadores subtis e Sharon cantando em tom melancólico, até nova aparição dos grunts e mergulho na melodia hipnótica. Conclusão: Enter é uma faixa obrigatória para qualquer apreciador de metal sinfónico e melódico [eu diria mesmo para qualquer apreciador de metal], uma pérola de peso e harmonia. Incontornável.

A suavidade de Pearls of Light mostra-nos o outro lado dos Within Temptation, que já se deixava entrever em Restless. O colectivo holandês é mestre na melodia e esta faixa é um exemplo disso mesmo. Sintetizadores e teclados fantasiosos, até à chegada das guitarras e bateria, naquele que é mais um refrão de qualidades líricas notáveis. Sharon utiliza, a um dado momento, o seu timbre mais lírico, que contribui para acentuar o encantamento em que este tema envolve o ouvinte.

Em Deep Within mergulhamos na veia black metal melódico dos WT. Vocais entregues a George Oosthoek – na época, vocalista dos já extintos Orphanage – e total ausência da voz de Sharon. Refrão vibrante, mais uma melodia hipnótica, acelerações breves intercaladas com ritmos mais compassados. Os WT provam que nem sequer precisam de uma voz melodiosa para serem melódicos.

Gatekeeper é uma faixa maioritariamente instrumental, com uma estrutura complexa que hoje seria impensável num trabalho dos WT [ainda assim, uma inspiraçãozinha nesta Gatekeeper num álbum futuro e eu não me queixava]. Esta é a faixa por excelência da conjugação das melodias dos teclados com o peso das guitarras. Inspiração lírica negra e opressiva, muito bem interpretada por Sharon.

Grace continua na mesma linha, embora com maior participação vocal. O refrão não nos cativa à primeira, mas após algumas audições, lá fica por uns tempos. O destaque vai para… a melodia, claro. Esta faixa, em todo o seu peso de verdadeiro metal, embala-nos e transporta-nos para longe. A voz de Sharon assume perfeitamente as suas duas vertentes - o seu carácter mais etéreo e encantatório e o seu lado mais tenebroso e vibrante. Uma ambiguidade em que se especializará nos anos seguintes e na qual ninguém, até hoje, a conseguiu igualar. Segue-se Blooded, um somatório interessante do que a banda fazia na época a nível instrumental.

Enter termina com aquele que é um dos melhores temas de sempre dos WT. Falo de Candles, que é tudo aquilo que, na minha humilde opinião, faz dos WT os WT e não outra banda qualquer. E embora a descrição de uma música, seja ela qual for, fique sempre aquém da música em questão, aqui vai uma tentativa. Suavidade. Sharon e o seu timbre mais etéreo. Este é apenas o mote, porque o que se segue é uma ambiência de obscuridade, mistério e peso. Estamos perante um trabalho lírico de grande beleza e uma composição musical e instrumental mágica. Após o manto tecido pelos sintetizadores, entra um piano sóbrio. E depois aquela bateria e aquelas guitarras. As adequadas. O tom etéreo de Sharon torna-se inatingível, até os grunts de Robert nos fazerem descer à terra, deitando-se sobre a melodia viciante do piano. Tudo se combina numa quase perfeição. E só não digo perfeição, porque tive a oportunidade de ouvir, mais recentemente, uma interpretação deste tema ao vivo e, essa sim, foi perfeita, porque juntou a qualidade e profissionalismo dos WT de hoje à magia do que faziam em 1997.



Tracklist:
1. The Dance
2. Another Day
3. The Other Half (of Me)












Um ano depois, a banda lançava o primeiro (e único) EP da sua carreira. The Dance apresentava três novos temas. No que respeita aos teclados, o som do piano deixa de ter tanta presença e investe-se mais no som característico do órgão propriamente dito, tornando a sonoridade mais pesada e obscura. Tratava-se de mais um passo na direcção de Mother Earth.

A faixa título, The Dance, só é equiparável à própria Enter em peso e força. Absoluto predomínio do órgão que discorre uma melodia perturbadora, mas ainda mais perturbador é o tom que Sharon utiliza. A sua voz soa absolutamente malévola, naquela que é a faceta que mais gosto no seu timbre e que será mais profundamente explorada no álbum seguinte. O diálogo Beauty and The Beast marca presença, assim como uma bateria mais variada e rápida, que sossega no já característico momento lento e dramático.

Another Day é uma faixa pesada e teatral, com teclados, coros sintetizados e guitarras arrastando uma melodia dolorosa. A voz de Sharon paira algures entre o céu e a terra, crescendo em intensidade até se tornar soberana de toda a composição.

Ainda neste EP, a banda traz-nos uma das suas melhores malhas sonoras – The Other Half (of Me) é capaz de ser tudo o que um metaleiro mais tradicional pode desejar de uma banda de metal sinfónico. Este tema é veloz – mais veloz do que qualquer coisa que os WT haviam feito até esta altura – e, ainda hoje, é um dos temas mais rápidos do seu repertório. A melodia vertiginosa que abre este faixa é conhecida de qualquer fã. A velocidade das guitarras imprime uma força única a esta faixa, que é a incorporação mais que perfeita do formato Beauty and The Beast - o diálogo entre Luz e Sombra, Bem e Mal, a Bela e o Monstro, desenrola-se por entre a fúria das guitarras e da secção rítmica.

Enter não é o melhor álbum dos WT. Não é o melhor a nível de produção nem a nível instrumental [e só não digo o mesmo em relação às letras, porque tenho por estas uma estranha mas profunda afeição]. Ainda assim, é a estreia brilhante dos WT. Neste álbum, e no próprio EP, encontram-se algumas das melhores composições do colectivo. E também está aqui a receita daquilo que fazem hoje – uma melodia inspirada, pensada e construída para se entrelaçar com o peso do metal, uma bateria já nesta altura bem característica e uma estrutura lírica que se reveste de um carácter poético. É também nestes dois registos que podemos escutar o grito de uma voz excepcional, que cresceu em domínio e beleza, tornando-se numa das melhores vozes femininas do metal.

Destaques:
Restless, Enter, Candles, The Dance, The Other Half (of me)


16.8 valores em 20

Inês Martins (Lua Minguante)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Senhora do Metal do Mês - Dezembro

7 de Fevereiro de 2008. A Rotterdam's Ahoy Arena, na Holanda, está com lotação esgotada: nada mais, nada menos, do que uma audiência de 10.000 pessoas. No palco, uma produção de excelência, uma orquestra de 60 instrumentos, um coro de 20 vozes, músicos convidados, um número considerável de performers de espectáculo, pirotecnia e efeitos de luz. Ao fundo, o maior ecrã da Europa estendia-se de um lado ao outro da arena. Em cima do palco, uma banda com 12 anos de existência admitia ter alcançado o ponto alto da sua carreira. A confissão feliz é feita na voz da Senhora do Metal que é fundadora, compositora e vocalista de umas das bandas mais reconhecidas a nível mundial, na área do metal sinfónico de voz feminina. Sharon den Adel.


Com uma voz vibrante, de tonalidades obscuras ou angelicais, uma presença forte em palco e um percurso marcante, a frontwoman dos Within Temptation é referência uma absolutamente incontornável. Com formação estável desde 2001, a banda parece ter encontrado o equilíbrio entre peso e harmonia que sempre buscou. Dez anos depois do álbum de estreia, Enter, a voz de Sharon den Adel revela-se no seu apogeu, alcançando registos anteriormente inéditos.

É por todas estas razões (e outras mais, que enumeraremos ao longo do mês) que fechamos o ano de 2008 com esta voz formidável, com a certeza de ser com chave de ouro.

sábado, 12 de julho de 2008

REVIEW - Within Temptation - Optimus Oeiras Alive 11.07.08



No dia 11 de Julho, a espera demonstrou ser interminável para os fãs da banda holandesa Within Temptation (WT), naquele que foi o segundo dia do Festival Optimus Oeiras Alive 2008, dia praticamente dominado pelas sonoridades do reggae e por uma miscelânea tão grande de estilos e respectivos públicos e que, pela sua excessiva variedade, carecia claramente da coerência necessária a um bom festival e impedia alguns de fazer render os 45 euros do bilhete. Incoerências da organização à parte, os WT não desiludiram, apesar dos meros 60 minutos que a organização do festival havia reservado para a sua actuação e que originaram uma setlist de 11 temas, curta e composta maioritariamente de singles e temas do último álbum The Heart Of Everything (2007) e do anterior The Silent Force (2004). Apesar da necessária escassez, a banda liderada pelo guitarrista Robert Westerholt e a Senhora do Metal, Sharon den Adel deu um dos melhores concertos da noite em termos cénicos e de interacção com o público, com a energia contagiante que já é imagem de marca da banda. Os fãs foram elemento central para fazer deste um concerto inesquecível (apesar da sua duração mínima), incansáveis na sua espera, alguns desde as 10h da manhã, outros desde a abertura das portas, às 16h. As longas horas foram suportadas na linha da frente, segurando faixas de apoio à banda, até às 23.40h, hora em que o palco começou a ser montado para a actuação. Os WT distinguiram-se de imediato pela produção cénica que levaram ao palco, contrastando fortemente com os palcos despojados dos outros concertos do dia. Uma tela com gárgulas foi colocada ao fundo, quatro tochas ladeavam o palco, assim como dois anjos de negra beleza e dois grifos, um de cada lado. Às 23.55h, a espera terminara finalmente.






Os coros magistrais da Intro do álbum The Silent Force ecoaram na noite e os fãs responderam entusiasticamente. O teclista Martijn Spierenburg ocupava o seu lugar, Stephen van Haestregt sentava-se atrás da bateria, Jeroen van Veen entrava com o seu baixo. Os dois guitarristas Ruud Jolie e Robert Westerholt arrancaram os primeiros acordes de Jillian (I’d Give My Heart). Sharon den Adel entra em palco, sorridente e lindíssima num corpete branco e saia justa comprida e bordada no mesmo tom. É recebida em delírio por um público que canta cada palavra. A voz de Sharon esteve, como habitualmente, irrepreensível, alternando entre o seu tom angelical e os tons mais graves e rockeiros utilizados no álbum The Heart of Everything, sem incorrer em erros de afinação, apesar de se enganar aqui e ali nas letras. Após o segundo tema, a poderosa The Howling, havia uma surpresa para a Senhora do Metal dos WT que faz anos precisamente hoje, dia 12. Já passava da meia-noite e os fãs cantaram os parabéns para uma Sharon maravilhada e surpreendida.


A partir daí, a entrega foi ainda maior. A banda lançou-se no single What Have You Done, com o público a cantar a plenos pulmões as partes de Keith Caputo, que partilha as vocalizações com Sharon neste tema. Seguiu-se outro single, desta vez do álbum The Silent Force, Stand My Ground, com quase todos os membros da banda em forte interacção com o público. Robert demonstra ser infatigável nessa interacção e até o, habitualmente mais quieto, teclista Martijn, largou momentaneamente as teclas para bater palmas com o público. Chega a negra The Heart of Everything, que a vocalista parece sempre dedicar aos seus fãs. A voz de Sharon percorre diferentes tonalidades, indo desde o seu tom mais negro e grave aos tons mais elevados, sem a mais pequena desafinação.





Um dos momentos altos aproximava-se e a tela ao fundo mostrava imagens reais de um mundo em guerra. Our Solemn Hour limitou-se a ser aquilo que só por si é, uma música magistral e épica, um tema absolutamente incontornável com um refrão retumbante. Seguiu-se outro single de The Silent Force, Angels, tema em que brilha o tom angelical de Sharon den Adel que aponta para os seus fãs enquanto canta “I see the angels”.


Hand of Sorrow trás o momento alto da actuação, com banda e público aos saltos, seguindo o ritmo bombástico daquele que considero um dos melhores temas que os WT nos trouxeram com o seu álbum de 2007. O refrão viciante leva toda a gente atrás, sendo impossível fugir às palavras e à melodia das guitarras. A voz de Sharon atinge, com este tema, patamares de incrível beleza, e a sua presença em palco vem evidenciar claramente todas as razões pelas quais esta é uma das melhores Senhoras do Metal da actualidade.






A dois temas do fim apresenta-se o clássico Mother Earth e para esta não são necessárias quaisquer palavras. Quem já esteve num concerto dos WT sabe o que é sentir aquele arrepio pela espinha quando os acordes celtas se fazem ouvir e as guitarras entram atrás deixando-nos sem respirar. Sabe também que, depois, a voz de Sharon contará a história, erguendo-se no característico refrão que mais ninguém consegue cantar senão ela e que as mãos se levantarão no ar, bem altas, quando a música cessa e entra o coro masculino. Sabe que Sharon se afasta do microfone nesse momento e começa a sua conhecida “dança” e que depois a música recomeçará com aqueles acordes inesquecíveis. E sabe que tudo termina exactamente como começou. De forma épica e estrondosa.

A balada escolhida para a noite foi Memories, ao contrário da tão desejada Forgiven (do álbum The Heart of Everything), mas ninguém se deixou abater e todos cantaram em coro com Sharon que usava as letras para descrever o que estava a sentir na noite especial de aniversário que lhe tinham oferecido.





Chegara o fim da pequena hora que lhes fora reservada e a desilusão foi palpável quando os acordes da final Ice Queen se fizeram ouvir. Ainda assim, os WT entregaram-se com garra ao tema final, e os típicos “ohoh” foram gritados em uníssono pelo público, no tema-símbolo da banda. Terminara o minúsculo concerto, mas que não soube a pouco porque a banda e o público assim o quiseram. Os fãs gritavam “we want more” e Sharon dizia tristemente que também ela queria continuar. Mas o profissionalismo dos WT fê-los então abandonar o palco à hora certa, para não prejudicar a banda seguinte, não sem antes mandarem palhetas e baquetas, com Sharon a distribuir beijinhos, visivelmente emocionada.


Apesar da fraca originalidade da setlist, esta foi uma hora que provou o carisma, energia e qualidade de uma banda com 12 anos de carreira, que tocou num festival destinado maioritariamente a públicos de sonoridades reggae e que ainda assim soube dar um grande espectáculo e corresponder às expectativas de quem tudo suportou para os ver. A Senhora do Metal, Sharon den Adel, parecia não ser capaz de deixar de sorrir e a sua simpatia voltou, claro, a conquistar quem quer que ainda não se tivesse rendido anteriormente. Elogiou a noite, a beleza de Lisboa (redimindo-se, talvez, da gaffe geográfica do Super Bock Super Rock de 2006), e estendeu esses elogios ao seu incansável público, agradecendo comovida as flores, a prenda, as faixas de apoio e principalmente, os cânticos de parabéns, que considerou um momento muito especial que não esquecerá.


Resta esperar um regresso em grande e para breve, para um concerto com o dobro da duração e que percorra saudosos temas dos tempos Mother Earth (2003) e quem sabe dos ainda mais saudosos Enter (1997) e The Dance (1997). Será, certamente, mais um excelente espectáculo, como os WT nos têm habituado.

Inês Martins (Lua Minguante)

Setlist:
Intro + Jillian
The Howling
What Have You Done
Stand My Ground
The Heart of Everything
Our Solemn Hour
Angels
Hand of Sorrow
Mother Earth
Memories
Ice Queen


Créditos fotos - Blitz